segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

E foi assim que tudo começou... parte II: levada às "baias" da loucura

Meu cunhado Fabiano resolveu criar cavalos. Não, ele não é fazendeiro. Não, não tem experiência no assunto. Não é veterinário nem zootecnista. É contador, trabalha em escritório. Não, eu não sei de onde ele tirou essa loucura. Talvez uma mistura de falta do que fazer com o tempo livre, vontade de ganhar um dinheiro extra, e um pouquinho de megalomania.
O fato é que ele alugou um pedaço de terra, construiu quatro baias, fez um piquete, e junto com um amigo quase tão maluco quanto ele (o Roger) comprou algumas éguas e um jumento e pôs lá. O plano era produzir burrinhos e mulinhas pra vender.
Essas baias viraram "o assunto" na família. O Leandro ficou todo empolgado com a idéia e sempre que podia ia pra lá ver os bichos. Voltava animadíssimo, contando como era legal. Eu nem prestava muita atenção nessas conversas, até porque o Fabiano é meio "de lua" e achei que logo ia desistir dessa empreitada. Mas o tempo foi passando e o danado não desistiu. Acabou comprando um cavalo também, pra ele: o Raio. Sempre que alguém perguntava o nome do cavalo, o Fabiano falava: "É Raio, mas não fui eu que pus, já veio com esse nome." Começamos a chamá-lo de "Raio-já-veio-com-esse-nome".  Não sei porque essa vergonha do nome! Acho até bonitinho...
Ai o Leandro um belo dia me chamou pra ir lá nessas baias. Disse que ia me ensinar a andar a cavalo. A última vez que eu tinha subido num cavalo, acho que eu tinha uns doze anos e foi lá em Rio Quente, num desses cavalinhos lerdos, que ficam lá pras crianças passearem. Mas vá lá. Topo, por que não? Vamos cair pra dentro! Achei também que era uma ótima desculpa pra comprar umas botas de cano alto, de montaria, que acho lindas.
Chegando lá, fui apresentada ao Titã, cavalo do Franco, primo do Leandro (o Franco que é primo, não o cavalo! hehehe, piadinha infame...). Dei uma voltinha com o Titã e achei a coisa mais legal do mundo, super divertido. Achei ele muito manso e obediente. Mal sabia eu que um dia eu seria lançada contra um pé de limão por esse infeliz, mas isso depois eu conto.
Acho que nesse dia eu devo ter sido picada por algum carrapato transmissor de insanidade, porque a partir daí, toda vez que tínhamos um tempo livre, eu queria ir lá pras baias. Virou nosso point. O Fabiano transformou o espaço de uma das baias em cozinha. Colocou um fogão, uma geladeira que não funcionava direito e nem parava fechada, um sofá velho que tinha os braços pontudos projetados especialmente pra causar hematomas nas pernas das pessoas e uma mesa com cadeiras. Levamos uma churrasqueira velha e volta e meia levávamos carne pra assar lá. Nunca tinha espaço pra todo mundo sentado, não tinha banheiro (tinha que ir no matinho mesmo) e tinha sempre uma galinha tentando botar ovo em cima da geladeira, mas não víamos problema em nada. Ligávamos o radinho no modão de viola e tudo era festa.
Mulinha que é bom, não nasceu nenhuma e eles acabaram vendendo o jumento. Um belo dia resolvemos fazer um passeio. Vai então decidir quem vai em qual bicho. O Roger trouxe pra mim uma égua castanha do pasto, acho que era a Estrelinha, não lembro. Vi que ela estava um pouco agitada e perguntei se não tinha perigo, porque a minha única experiência era com o Titã, que nesse dia não estava lá. E o Roger: "Claro que não tem perigo! Essa aqui é muito boazinha. Você acha que eu ia te colocar em fria?" Não, acho que não, né... Por via das dúvidas o Roger resolveu montar nela primeiro, pra ver. Foi uma cena chocante. Foi ele encostar a bunda no arreio e a égua simplesmente desmontar no chão! Ela se jogou no chão, de lado! Ele teve reflexo suficiente pra pular antes de ter uma perna esmagada, mas e se fosse eu que tivesse montado? Tava lá esmagada no chão até hoje!
Roger começou a tentar levantar a égua. Chamou, puxou pelo rabo e nada. Acho que ela não queria trabalhar mesmo nesse dia. Juntaram três pra levantar a criatura e, lógico, tirar arreio e soltar no pasto, porque nem pagando eu ia tentar montar.
Então em qual eu vou? "Ah, tem a Florença! Essa sim, é mansa mesmo, uma gracinha!" "Será, Roger?" "Lógico, essa é confiável, pode levar até criança. Você acha que eu ia te colocar em fria?" Hum... Sei não... não, né??? Montei na Florença, que é um bichinho felpudo e baixotinho. Parece um pônei. Feia de doer. Foi montar e a desgramada começar a trotar sem rumo, ignorando completamente qualquer comando de rédeas. Entrei em desespero: "Ela não páaaaaaara! O que que eu faaaaaaço?" Florença corria de uma cerca à outra, fazia uns círculos, totalmente desgovernada, e eu em cima aos trancos, puxando as rédeas. De repente ela chegou numa cerca e parou. Pulei pro chão na mesma hora, com medo dela resolver correr mais. Fiquei lá apoiada na cerca, com as pernas meio bambas. O Leandro veio rindo: "Você é muito mole, benzinho! Tem que ser mais firme com o bicho, pra ele te obedecer. Tem que mostrar o que você quer. Quer ver? Vou te mostrar como que é. " E montou. Foi montar e a desgramada sair trotando do mesmo jeito, sem rumo! Ha, ha, ha, ha, ha! Minutos depois ela deixou o Leandro descer, sem gracinha, coitado... Parecia que tinha acabado de dar uma volta de montanha-russa! "É, parece que ela não é muito boa de rédea... Também, faz tempo que ninguém monta..." E agora que você me fala isso???
Então, próxima opção? A Bela, claro! Lá vem o Roger de novo. "Essa aqui não tem erro." Nessas alturas eu já estava achando que não ia sobreviver ao passeio... Mas, vamos tentar, né, pior do que a Florença não podia ser. Mas foi. A Bela andava pra onde eu queria, isso é verdade, mas eu parecia uma pipoca no microondas, cada passo dela era uma hérnia de disco que surgia em mim. Nunca vi nada parecido. Não dava nem pra me equilibrar na sela. Desci, já querendo chorar e falando que não queria mais ir em porcaria de passeio nenhum. Queria voltar pra cidade e ir pro shopping, de carro, como uma pessoa normal. Acho que tudo teria terminado aí: o passeio e o "invocamento" por cavalos, se não tivesse uma última opção. A opção era a Morena, a égua do Roger. Foi um ótimo passeio e o começo de uma amizade. Morena é grandona, deu até um pouco de medo de ficar tão no alto, em cima dela, mas é tão tranquila, tão inteligente, tão paciente... Me apaixonei por ela nesse dia.
Depois de um tempo fiz as pazes também com a Florença, que acabou se tornando uma ótima companheira, depois que passou por treinamento. Boa de sela como ela só. Hoje até nem a acho tão feia!
A Estrelinha também ficou minha amiga e foi com ela que fiz pela primeira vez o trajeto das baias até o sítio do Luiz Henrique, atravessando o rio, que depois repetiríamos tantas vezes. E ela nem é preguiçosa. Adora galopar, principalmente nas subidas. Nunca vou esquecer dos galopes dela na última subida, chegando ao sítio... Bom demais!
Mas a Morena é a minha querida, minha preferida desde o princípio. Comecei a levar cenouras pra ela quando ia pras baias. Ela era um pouco desconfiada, não gostava de carinhos e muito menos que se pusesse a mão em sua cabeça. Mas adorava as cenouras e por causa delas ficava sempre atrás de mim quando eu chegava. O Leandro e o Roger achavam engraçado e ficavam brincando que eu ia acabar comprando a Morena. E acabei comprando mesmo, quase um ano depois! Mas isso já é outra história...



"Raio-já-veio-com-esse-nome", e no fundo o Leandro arrumando a Morena



Eu e minha preferida.


Florença e eu, de pazes feitas. 


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