domingo, 22 de janeiro de 2012

O mago dos cavalos e os dedos gordos

Hoje acordamos às sete e meia da manhã, após umas quatro horas de sono. Ontem aconteceu a melhor festa na roça que já fizemos, com direito a costela assada no fogo de chão, milho verde na brasa, violeiro profissional e por aí vai, sem contar a companhia dos mais animados amigos. Depois tenho que fazer um post só contando dessa festa, porque teve história demais. Depois tem gente que não entende eu gostar de roça... Bom, mas aí acordamos e depois de arrumar o resto da bagunça que sobrou, fomos assistir Globo Rural e estavam reprisando uma reportagem sobre a Equitana, que pra quem não sabe é uma megafeira de cavalos que acontece na Alemanha. Foram mostradas várias apresentações de equitação maravilhosas. Não acho correto chamar de adestramento o que essas pessoas fazem, porque vai muito além disso. É uma espécie de comunicação entre homem e cavalo que o simples aprendizado pelo treino não é capaz de explicar. Tem algo mais, uma interação, uma confiança mútua, uma cumplicidade, que vai além do meu entendimento.

O que mais me impressionou foi a apresentação do Lorenzo, um francês que trabalha com cavalos lusitanos. É poesia pura. Até doze cavalos trabalhando com uma precisão fantástica, sem rédeas, obedecendo a comandos delicados. Parece mágica.

Fiquei pensando como foi que ele começou. Porque com certeza ele não era uma pessoa comum, com uma profissão normal (um advogado, ou um contador, por exemplo) que acordou um belo dia e pensou: "Nossa, eu podia pegar um montão de cavalos e ensinar a fazer uns truques, e aí eu podia andar em pé em cima deles e fazer um monte de acrobacias! Cara, vou ficar rico com isso!" Descobri que ele começou com dez anos de idade, treinando acrobacias com um pônei. Com certeza gastava muitas e muitas horas por dia treinando e desenvolvendo estratégias de trabalho com os animais. Observando-os, aprendedo com eles, construindo vínculos. Que maravilha esse menino ter tido a felicidade de perceber esse dom. E que felicidade ele ter tido a oportunidade de desenvolvê-lo. Que destino diferente ele teria se tivesse uma mãe que gritasse da janela: "Larga esses cavalos, moleque! Vem pra dentro estudar matemática que amanhã tem prova! Se ficar de recuperação de novo vai apanhar!" Um dom precioso se perderia e o mundo perderia um pouco da sua beleza se esse menino tivesse um pouco de juízo e resolvesse dedicar mais tempo aos estudos pra se tornar médico, engenheiro ou economista, porque afinal de contas que loucura é essa de achar que dar uns pulinhos  em cima de um cavalo dá futuro pra alguém? Mas graças a Deus ele não teve juízo. Teve um sonho, uma vontade, teve também disciplina, estratégia, teve muito trabalho duro e deu no que deu. Pode ser que a França tenha perdido um bom médico, um bom engenheiro ou um bom economista, porque esse moço com certeza é dono de uma inteligência privilegiada, mas o mundo ganhou o poeta, o maestro, o mago dos cavalos. Ele se tornou algo que ninguém mais poderia ser: se tornou o melhor dele mesmo.

Com todos os problemas e incertezas que venho enfrentando nos últimos tempo, com essas decisões malucas na minha vida, tem uma coisa que sempre me consola e me traz paz. É saber que eu estou me encontrando. Que aos poucos eu estou descobrindo quem eu sou de verdade, o que eu quero e o que me faz feliz. Finalmente está caindo a ficha de que eu não preciso (e também nunca ia conseguir) me encaixar em um padrão pré-determinado pela minha família, pelos meus professores e colegas, e pela sociedade. É minha obrigação ficar atenta aos meus dons e desenvolvê-los, e não lutar contra a minha essência pra desenvolver dons que não tenho e nem quero ter.

Nem quero pensar em quantos grandes talentos a humanidade já perdeu porque tentou encaixar em forminhas de brigadeiro quem nasceu pra ser pé-de-moleque. Se Sócrates tivesse resolvido fazer um curso de marcenaria ou virado pedreiro, que dá muito mais dinheiro do que ficar filosofando pelas ruas... Com certeza teria escapado da taça de sicuta, mas teria sido feliz? E se Van Gogh tivesse prestado um concurso para funcionário público, cargo muito estável e cheio de privilégios? Talvez a rotina tranquila da repartiçaõ não trouxesse as perturbações que o levaram a decepar a própria orelha, mas não teríamos seus girassóis, seus tristes ciprestes nem suas noites estreladas. 

O mais triste é que nossa sociedade capitalista e consumista (por mais chavão que isso possa parecer) nos empurra a todos pra uma esteira maluca onde nos sentimos obrigados a entrar nas forminhas de brigadeiro. Tem que prestar vestibular. Tem que se formar na faculdade. Tem que passar no concurso. Tem que fazer mestrado. Tem que ter carro do ano, de preferência importado. Tem que ter TV de no mínimo 42 polegadas. Tem que fazer festinha temática de 1 aninho de idade pro seu filhinho no bufet da moda. Tem que... Argh! Argh! Não aguento mais!

O sapientíssimo Rubem Alves tem um livro ótimo com o intrigante título "O país dos dedos gordos". Vale a pena ler. Ele conta a história de um rei que promovia todos os anos um baile, com número limitado de convidados. Pra selecionar quem podia ou não entrar, o critério era a grossura do dedo seu-vizinho da mão esquerda. Como quem era selecionado pro baile também ganhava vários privilégios, como emprego público vitalício, por exemplo, os jovens do país inteiro pararam de importar com bobagens como artes, música, literatura e passaram a investir seu precioso tempo em exercícios para engordar o dedo.
O livro é uma crítica ao vestibular, sistema de seleção que Rubem Alves abomina. Mas acho que não pára aí. Depois que se termina a faculdade, continua a pressão para se engordar o dedo cada vez mais.

Pela graça de Deus casei com um homem de dedo magro e que sabe o que quer da vida. Chega de engordar dedo! Quero mais é ser feliz.


Vale a pena ver esse vídeo que mostra o Lorenzo, o "francês voador", em ação:
http://youtu.be/r-selFX3JD4

A história dos dedos gordos é ótima e curtinha. Leia na íntegra:
http://www.rubemalves.com.br/ospaisdosdedosgordos.htm


Mais uma estorinha, pra fechar:

A escola dos bichos!

Conta-se que vários bichos decidiram fundar uma escola. Para isso reuniram-se e começaram a escolher as disciplinas.
O Pássaro insistiu para que houvesse aulas de vôo.
O Esquilo achou que a subida perpendicular em árvores era fundamental.
E o Coelho queria de qualquer jeito que a corrida fosse incluída.
E assim foi feito, incluíram tudo, mas...
cometeram um grande erro.
Insistiram para que todos os bichos praticassem todos os cursos oferecidos.
O Coelho foi magnífico na corrida, ninguém corria como ele. Mas queriam ensiná-lo a voar.
Colocaram-no numa árvore e disseram: "Voa, Coelho". Ele saltou lá de cima e "pluft"...
coitadinho! Quebrou as pernas. O Coelho não aprendeu a voar e acabou sem poder correr também.
O Pássaro voava como nenhum outro, mas o obrigaram a cavar buracos como uma topeira.
Quebrou o bico e as asas, e depois não conseguia voar tão bem, e nem mais cavar buracos.
UMA COISA?
Todos nós somos diferentes uns dos outros e cada um tem uma ou mais qualidades próprias
dadas por DEUS.
Não podemos exigir ou forçar para que as outras pessoas sejam parecidas conosco ou tenham nossas qualidades.
Se assim agirmos, acabaremos fazendo com que elas sofram, e no final, elas poderão não ser o que queríamos que fossem e ainda pior, elas poderão não mais fazer o que faziam bem feito.

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