segunda-feira, 26 de março de 2012

De volta ao caminho das pedras: o Haras Fabiano

Nos últimos posts fiquei filosofando demais e me perdi um pouco do “caminho das pedras”, como diria o Luiz Claudio. Então hoje vou retomar o caminho e tentar contar um pouco mais dessa jornada rumo à roça.
Eu já contei sobre as baias que o Fabiano fez e que viraram nossa mania. Eu achava o lugar tão legal que não me dava conta de que as pessoas urbanas e normais poderiam não gostar de lá. O Neto, de gozação, chamava essas baias de “Haras Fabiano”, e o apelido pegou rapidinho. Mas de haras não tinha nada. Era uma construção pequena, retangular. Quatro baias enfileiradas, de alvenaria pintada de verde, com portinhas de madeira. Como já contei, uma das baias do meio virou cozinha. Tinha também um quartinho onde guardávamos as tralhas de selaria, rações e material de limpeza. Numa das extremidades da construção ficava um piquete, com cerca branquinha, de madeira. Tudo simples, mas muito bem feito e bonitinho. Alguns cavalos ficavam nas baias, outros no piquete, e outros soltos no pasto. Sempre tinha também uma galinha com pintinhos ciscando ou um simpático porquinho fuçando por ali.
Um dia chamei a Raquel pra conhecer o nosso “haras”. Expliquei direitinho como chegar: “É só pegar a rodovia, ir direto até uma entrada de estrada de terra onde tem uma caçamba. Aí você vira à direita. Quando você avistar uma árvore com dois ninhos de passarinho, vira à esquerda.” Ela quase me bateu: “Mas que referências ridículas são essas? E se a caçamba não estiver lá? E árvore com dois ninhos de passarinho? Pelo amor de Deus!” Tive que combinar de ir junto com ela. Quando entramos nas terras do seu João, onde ficavam as baias, a Raquel já foi ficando preocupada, porque não conseguia desviar seu lindo carro importado dos montões de cocô de vaca que estavam por toda parte. Mais à frente, quando começou a ter que desviar das próprias vacas, que se deitavam tranqüilas no meio da estrada, aí ela entrou em desespero. Chegando às baias, desci do carro, afastei os arames da cerca e me espremi pelo meio deles pra entrar, como sempre fazíamos. A Raquel ficou me olhando meio boquiaberta e perguntou: “Você tá brincando, né? A gente tem que passar pela cerca? Não tem um portão, uma porteira, que seja?” Não tinha. E nunca pensamos que haveria necessidade disso. Achávamos a coisa mais normal do mundo passar pela cerca. Muito relutante, a Raquel passou também e fui apresentar os cavalos pra ela. “Esse é o Raio. Essa é a Estrelinha. A Florença. Essa linda aqui é a Morena.” Ela ficou olhando os cavalos, fez um carinho na Florença, andou pra lá e pra cá um pouco e falou: “Então é só isso aqui? Acho que já vou embora.” Como assim? Pra mim não tinha programação melhor do que ir pra lá. Mesmo se não fosse pra andar a cavalo. Ficava por ali brincando com os cachorros do seu João, desenhando, ou só olhando o pôr do sol. Até ajudar a limpar as baias eu achava divertido.
Nessa época o Leandro estava numa crise existencial danada. Ele tinha pedido demissão de um bom emprego no escritório pra montar uma empresa junto com o Marquinho. A ideia da empresa era ótima e eles estavam super empolgados. Trabalhavam o dia inteiro. Era uma correria pra entregar mercadoria, embalar encomenda, telefonar pra fornecedor, fotografar os produtos pro site, uma labuta danada. Mas como em todo início de negócio, as dificuldades eram muitas, os investimentos muito grandes e o retorno muito pouco. As contas pra pagar não paravam de chegar e só podíamos contar com o meu salário pra todas as despesas. Eu estava trabalhando cinqüenta horas por semana e estava sempre estressada. Pela centésima vez tive que adiar meu sonho de reformar a casa. Nossa vida parecia meio caótica, sem rumo certo, e o Leandro se sentia responsável por isso. Ele tentava me passar segurança, mas eu percebia que ele não estava bem. Os meses passavam, a loja ainda não dava lucro nenhum, e a empolgação do início foi virando preocupação. O Leandro foi ficando abatido, estava sempre com um olhar distante, sorumbático. Eu não sabia como ajudar, então tentava nem tocar muito no assunto da loja, ou da vida profissional dele. Cada vez mais eu também estava ficando preocupada e desanimada.
 Mas quando íamos lá pras baias a gente se animava e se esquecia dos problemas. Era bom demais lidar com os cavalos. No começo, não entendíamos muito dessa lida, mas isso logo mudou. O Fabiano contratou um moço pra tratar dos bichos durante a semana, mas o restante do serviço eram mesmo os freqüentadores do “haras” que faziam, num esquema “cada um por si”: quem quiser andar, que arrume seu cavalo. Aí não teve outro remédio, acabamos aprendemos a arrear e desarrear os bichos, coisa que parece fácil, mas vai fazer pra ver! Fui aprendendo a diferenciar uma sela de um arreio, um freio de um bridão, um cabresto de uma cabeçada, um baixeiro de um pelego. Descobri o que é gamarra, o que é peitoral, o que é chincha, baldrana, alforje, e outros infindos acessórios que eu nem imaginava que existissem. Era todo um mundo novo, pra mim. Aprendi a dar banho nos animais, a passar a raspadeira no pelo e a pentear e aparar as crinas. Tudo isso era muito divertido, mas dava um trabalhão que nem te conto. Você que tem um gatinho em casa, nunca mais reclame que é chato ter que limpar a caixinha de areia dele. Pra limpar as “caixinhas de areia” dos nossos bichinhos, enchíamos um carrinho de mão! Parece que o bicho faz o próprio peso em merda, todos os dias! Não tem explicação... E aí de quem reclamar, perto de mim, que gasta muita ração com seu cachorrinho. Pros nossos pequeninos, que não se contentavam com o pasto, o Leandro levava sacos e mais sacos de capim moído, todas as manhãs. O pior é que, andando de Fusca, não era muito fácil levar todo aquele capim. Era saco de capim amontoado no chão, no banco de trás, em cima do motor... E quando eu ia junto, era saco de capim no meu pé, no meu colo, uma anarquia. Se você um dia viu um Fusca azul passando disparado pela estrada de Santa Rosa, com um rastro de capim atrás e capim voando pelas janelas, pode saber: era nóis!
 Aos poucos foi se formando uma turma de freqüentadores mais assíduos do “Haras Fabiano”. Tinha gente que ia de vez em quando. Mas tinha aquele grupinho fixo, que estava sempre por lá: o Fabiano, o Roger, o Leandro e eu, o Franco e a Regina, o Neto... O Neto logo ganhou o apelido de Jassa, porque revelou um talento insuspeitado pra fazer penteados nas crinas e nas caudas dos cavalos. Dava gosto ver o menino trabalhando. Ele ficava com uma expressão tão séria e concentrada que quem visse só a cara dele podia pensar que era um cirurgião fazendo um transplante cardíaco. Faltava só a máscara e o gorrinho! Parecia que ele tinha uns cinqüenta dedos em cada mão, de tanta agilidade trançando as crinas. A Fabiana, esposa dele, quando viu aquilo ficou admirada: “Mas onde foi que você aprendeu isso???  Será que você consegue fazer uma trança dessas, de cinco pontas, no meu cabelo?” E ele: “Aí, ta vendo porque que eu nunca tinha revelado meu talento? Agora não tenho mais sossego...” Como ainda não tínhamos comprado aqueles elásticos próprios pra amarrar as trancinhas dos cavalos, vivíamos procurando barbantes, pedaços de fita ou cordão pra prender os penteados. Até minhas gominhas de prender cabelo de vez em quando iam parar em alguma trança da Morena ou do Raio.
O Roger já criava e amansava cavalos há algum tempo, no sítio do sogro dele. O Franco desde criança já vivia em roça, em cima de cavalo, mexendo com gado, e nessa época tinha acabado de fazer um curso de doma racional. O Leandro também já sabia alguma coisa do assunto, sabia andar a cavalo desde pequeno, mas foi aprendendo mais com os meninos e se interessou muito por esse negócio de doma racional. Ficou apaixonado pelo tema e começou a estudar feito louco, ler livros, ver vídeos, e assim que surgiu a oportunidade, fez o curso de doma e rédeas. Eu nunca tinha visto o meu marido tão cansado, tão sujo e esfarrapado, tão queimado de sol, como nessa época do curso. Mas também acho que nunca tinha visto ele tão feliz. Voltou a ter aquele brilho nos olhos, que há algum tempo tinha se apagado.  O que era só um passatempo despretensioso estava virando uma paixão e ele começava a perceber que tinha um talento verdadeiro. Acho que não existe nada melhor pra auto-estima do que descobrir que a gente é realmente bom em alguma coisa. Depois que terminou o curso, ele começou a trabalhar com os cavalos lá das baias, treinando rédeas, e os resultados foram ótimos. Até a Florença, que tinha um problema de desobediência crônica e alguns episódios de descontrole completo, foi ficando tranqüila e sensível aos comandos.
O Leandro estava tão empolgado com o trabalho com os cavalos e ao mesmo tempo tão desanimado com a loja, que de repente tomou uma decisão meio louca. Resolveu ir trabalhar nas baias. Combinou com o Fabiano de ir todos os dias pra limpar o lugar, tratar dos bichos e treiná-los. Por um lado fiquei feliz, porque tinha acabado aquela época só de tristeza, mas ao mesmo tempo tinha um pouco de medo daquilo ser só um tipo de fuga, uma forma de não ter que lidar com os problemas da loja. Será que não dava pra ser só um hobby? Tinha que largar tudo pra mexer só com cavalo? Mas com o Leandro é assim. Quando ele encasqueta com uma coisa não tem jeito. De técnico em contabilidade ele tinha virado empresário, e agora estava virando... um peão! E ele entrou de cabeça mesmo nessa nova fase de vida. Só andava de botina, chapéu de palha e um canivete no cinto. Uma vez foi comigo a uma festa de Natal da Unimed (foi sem chapéu, graças a Deus), e foi apresentado ao meu chefe, o gerente de saúde . O chefe, todo gentil e educado: “Que prazer conhecer o esposo da Dra. Giselle! Você também é médico? Não? Trabalha com o quê?” E o Leandro, já achando graça: “Ah, eu mexo com roça...” O chefe arregalou os olhos, e demorou a responder, sem saber se levava aquilo a sério: “Mas... como assim? De verdade?” “É, eu trabalho com cavalo.” O meu gerente enrugou a testa, ainda tentando processar aquela informação: “Então você é fazendeiro?” “Não, sou roceiro mesmo!” Dali a pouco os dois estavam no maior papo sobre cavalos, vida no campo, o chefe lembrando da infância dele na fazenda do avô... E eu que estava com medo do meu marido ficar deslocado na festa... Eu é que acabei ficando de fora da conversa. Fiquei ali só escutando e torcendo pro Leandro não tirar o canivete da cintura pra cortar um canapé.
Mas muito melhores que as festas da empresa eram as festas que a gente fazia lá nas baias. Um dia resolvemos assar uma costela no fogo de chão. Estava fazendo muito frio e a ideia de reunir a turma em volta de uma fogueirinha não era ruim. O Roger levou a esposa, os sogros, as cunhadas. O Neto e a Fabiana também foram. A família do Leandro estava toda lá. Casa cheia, muita música (som do carro ligado, porque aparelho de som não tinha!) e comida boa. Me deu na telha de levar um telescópio que a Marisa tem, pra olhar as estrelas.  Tarde da noite, quando o pessoal já estava indo embora, eu e o Leandro, o Neto e a Fabiana, fomos montar o bendito telescópio e quem disse que a gente conseguia? Não sei se o negócio era difícil mesmo ou se foi uma cerveja a mais que a gente tomou, mas tinha hora que parecia que tinha peça a mais, outra hora faltava peça, e não conseguíamos parar de rir. Depois de uma hora de tentativas, montamos a máquina, mas aí descobrimos que ninguém sabia ajustar o foco. Sentei no chão, morrendo de rir, e de repente vejo caído ali perto um pequeno elástico, parecendo aqueles de amarrar dinheiro, mas muito, muito pequeno mesmo. “Olha aqui, Neto! Que legal que eu achei! Uma borrachinha perfeita pra você usar nas tranças dos cavalos!” “Nossa, é mesmo! Mas de onde surgiu isso?” “Sei lá. Será que é algum componente do telescópio? Mas olha, tem outra ali!” De repente estávamos os quatro engatinhando pelo chão e achando um monte daquelas borrachinhas esquisitas. O Neto todo empolgado: “Vamos ver se a gente acha bastante, pra fazer umas tranças bem legais.” Aí me deu um clique. Acendeu uma lampadinha na minha cabeça e eu saí pulando, jogando longe as borrachinhas e limpando a mão na calça: “Lembrei de onde são esses elásticos!” Todo mundo paralisado, me olhando com cara de medo. “São do aparelho fixo do Roger! Ele tava arrancando essas borrachinhas dos dentes hoje, mais cedo, porque falou que não consegue comer com elas!” Todo mundo jogando longe as borrachinhas e correndo pra lavar as mãos, o que não foi possível porque nesse dia a bomba de encher a caixa d’água não estava funcionando. No outro dia o neto do Seu João veio perguntar o que é que tinha acontecido de madrugada nas baias, porque lá da casa dele ele estava escutando umas risadas.
Surpresas que a vida traz. O que parecia acessório de cabelo era na verdade acessório ortodôntico, e usado. O que era pra ser uma noite de observação astronômica virou essa palhaçada. Casei com um contador e de repente ele vira peão da roça (um peão lindo, diga-se de passagem). Mas assim é que é bom. Se tudo fosse certinho e previsível eu não teria essas histórias malucas pra contar. Tchau pra vocês, depois conto mais! 
Neto mostrando que não só de penteados vive o Jassa, mas também de catar cocô de cavalo.


Nossa comitiva super animada: Humberto, Seu João, Roger, eu, Leandro, Franco e Regina.


2 comentários:

  1. Giselle adorei , é como dei risadas na parte do telescópio, do transporte do capim, do seu amigo que faz as tranças. gosto dos detalhes que você transmite. me emocionei na parte que fala do Leandro (crise existencial).
    enfim todo o texto muito bom !!!
    Abraços á você e o Leandro .

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  2. O JASSA VIVE DE CABELO E CATADOR DE COCÔ PORQUE ELE QUER. ELE QUE NÃO SABE O DOM QUE TEM. ISSO AE É BUNDA OU FRALDA PLÁSTICA MEU FILHO?
    KKKKKK

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