sábado, 3 de março de 2012

O chão é o limite

Era noite de lua cheia. Ouvia-se o som dos grilos e o canto dos curiangos, e uma brisa leve vinha nos refrescar. Tudo perfeito pra uma cavalgada noturna! A turma se reuniu nas baias, preparamos os cavalos e pegamos a estrada. Ou melhor, não pegamos a estrada, pegamos um atalho; um caminho arborizado que passa pelo fundo da propriedade, por entre grotas e cursos d’água. Tudo lindo, exceto pelo pequeno detalhe de que, por causa das árvores, a luz da lua não nos alcançava e o caminho ficou bem escuro. Já não enxergo muito bem com claridade normal, que dirá naquela escuridão. Detesto ser a reclamona, ou a medrosa, mas tive que falar: “Gente, não to conseguindo ver nada! Não é melhor ir pela estrada?” O Leandro respondeu: “Não, por aqui é melhor, e só tem esse pedaço mais escuro. Logo a gente sai na estrada. Pode vir atrás da gente. Passa por onde eu passar.” Tá bom, então... Só conseguia ver uma mancha branca na minha frente, que era a camisa do Leandro, e fui guiando de leve a Morena nessa direção, confiando na visão noturna dela pra desviar das árvores. De repente sinto um obstáculo. Tinha um galho no meio do caminho, no meio do caminho tinha um galho. Tentei me livrar dele, me desenroscar, mas não deu. A Morena, muito má, continuou andando, e quando eu me lembrei de puxar as rédeas, já era tarde. Senti os pés saindo dos estribos escorreguei pra trás e pensei: agora não tem mais jeito, vou cair mesmo. O mais engraçado é que parece que foi em câmera lenta. Fiquei esperando o chão chegar por longas frações de segundo. No fim me estatelei de costas, e a palhaça da Morena parou e virou a cabeça pra trás, me olhando, decerto pensando: “Mas o que você tá fazendo aí? A gente não ia passear?” O Leandro e o Roger voltaram pra me ajudar. “Tá tudo bem, não machucou?” o Roger perguntava, enquanto o Leandro me ajudava a montar de novo.  “Tudo bem, não foi nada.” “Então já posso rir.” E desatou a rir mesmo. Ficou rindo uma meia hora sem parar...
Foi o meu primeiro tombo, e se tenho só uma cicatriz pequena no pulso (me cortei com o galho) pra me lembrar dele, é por causa do bom temperamento da Morena. Se ela fosse medrosa, se tivesse se assustado com a queda, poderia ter me pisado ou até me arrastado. Mas a verdade é que por melhor que o animal seja, e por mais cuidado que se tome, ninguém está imune a beijar o chão. Dizem que existem dois tipos de cavaleiros: os que já caíram e os que ainda vão cair. Espero estar só no primeiro grupo!
O bom é que, quando não são acidentes graves (Deus nos livre desses), as quedas geralmente viram histórias divertidas. Mais divertidas pra quem assistiu do que pra quem caiu, é claro. Por muitos meses eu não podia montar sem que alguém me recomendasse às gargalhadas que não passasse perto de árvores...  Então, pra descontar, vou contar algumas quedas de outros cavaleiros.
É engraçado como a forma com que o cadente (o ser que cai) reage à queda, diz muito sobre sua personalidade. Veja o caso do meu primo Alex, que desde pequeno era marrentinho e nunca dava o braço a torcer. Com dez anos de idade já negociava com gado e montava em cavalo bravo. Uma vez resolveu montar numa jumentinha chamada “Destrangolada”. Pelo nome vocês já podem imaginar como era o bicho. A danada deu três pulos e o Alex se esborrachou no chão. Quando se viu livre do peão, a jumenta saiu correndo tão desesperada que escorregou e caiu também. Alex se levantou num pulo, limpando a poeira da roupa e já falando pra nós: “’Cês viram o tombo que eu dei nela?”
Tem também o Franco Túlio, que é o tranquilo da turma e um otimista incurável. Não esquenta com nada. Um dia foi numa cavalgada montado no Raio. Não sei se já contei isso, mas o Raio é um cavalo “pra frente”. Gosta demais de correr e é meio competitivo, detesta ficar pra trás. Franco e Raio ficam um pouco mais pra trás, enquanto o Leandro está na dianteira da comitiva. De repente o Leandro vê um cavalo branco passar disparado por ele. É o Raio. Sem o Franco. Mas... gente, então cadê o Franco? Ele olha pra trás e vê uma mancha na estrada, no meio da poeira. É o Franco esborrachado. Corre lá pra acudir, e vai ficando preocupado, porque o menino não se mexe. Leandro apeia e vai gritando: “Rapaz, o que aconteceu? Você ta bem?” Franco, que está com a cara enfiada na areia, só vira a cabeça de lado e põe a língua pra fora: cheia de terra. Enquanto o acidentado se levanta cambaleante, cuspindo um pouco da terra, chega a Regina, namorada dele. Ela vê que ele está todo esfolado, com um corte maior na testa, de onde escorre um fio de sangue, e se desespera: “Meu Deus! Franco, o que é isso? Olha esse sangue!” E ele, muito calmo, muito ponderado, leva a mão à testa, estuda a mão suja de sangue. “Regina... O corpo humano... O corpo humano tem sangue, Regina...”
O Leandro tem uma coleção de belos tombos, dos mais variados tipos. Tem aquele em que a Florença pisou num buraco de tatu e capotou com ele. Tem um em que a sela da Morena não estava muito firme e virou. O coitado ficou de ponta cabeça, embaixo da barriga da égua. Outro com o Raio, que enroscou o pé num arame de cerca, se assustou e pulou. Até hoje o Raio tem um problema com arames, por causa disso. Tem um muito bom com a Malagueta, uma égua que ele comprou muito brava, arrebentava cerca no peito, mas que depois da doma ficou um doce. Um belo dia, fomos buscar a Malagueta no pasto e como estávamos longe da casa, o Leandro resolveu que ia voltar montado nela em pêlo, sem cabresto. A égua estava tão confiante, tão tranqüila, que deixou-se montar e foi trotando feliz com ele. Quando fomos chegando, vimos o Luís Henrique lá perto da porteira. O Leandro estava todo empolgado com os resultados do seu trabalho de doma racional e queria mostrar pro Luís Henrique o progresso da Malagueta. “Nossa, ele não vai acreditar quando me vir montado em pêlo, nela. Agora só não posso cair.” Foi só ele falar e apareceu na curva da estrada, atrás de nós, o caminhãozinho do leiteiro. O infeliz ao invés de diminuir a velocidade veio acelerando e buzinando, e a Malagueta pocotó-pocotó, saiu correndo, é lógico. Leandro se segurou no pescoço dela, mas ela não gostou, deu um pinote e aí... chão. Luís Henrique olhou exatamente nessa hora, e está rindo até hoje.
Alguns tombos dele foram realmente inevitáveis, como o do buraco de tatu, mas na maioria dos casos teve alguma coisa que se poderia ter feito diferente: a sela que tem sempre que estar bem apertada, por exemplo, ou o leiteiro que deveria levar uma surra. O Leandro é extremamente racional e, sempre que algo dá errado, fica tentando analisar as causas e consequências. Ele aprende com os erros, e talvez por isso venha caindo menos, ultimamente! Mas uma coisa boa que percebo nele é que uma queda (ou duas, ou três...) não o intimidam. Acho que com o tempo ele tem ficado mais prudente, mas prudência é bem diferente de medo. Nas cavalgadas, como na vida, é preciso não se deixar paralisar pelo medo. É preciso se levantar de novo depois de cada queda. E também é preciso não se levar muito a sério, saber rir dos próprios tombos. Acho que sem essa capacidade de rir de si mesmo é muito difícil se recuperar dos tombos que levamos na vida, especialmente daqueles realmente dolorosos.
A ideia desse post me veio no dia da festa de aniversário do Luiz Henrique. Fizemos um churrasco na casa dele e a varanda estava cheia de gente. Todo mundo comendo, bebendo uma cervejinha, conversando. Só alegria. O Zé Alberto, amigo que mora lá por perto, como sempre era um dos mais animados. Conversava com todo mundo, contava histórias, ria alto. De repente começou a implicar, de brincadeira, com o Dudu, meu sobrinho de cinco anos. Dançava em volta do menino e fazia cócegas nele. O Dudu se remexia, rindo, tentando se livrar. Corria pra um lado, o Zé ia atrás e cutucava. Se esquivava, entrava embaixo da mesa, lá ia o Zé fazer cócegas nele de novo. Uma hora Dudu cansou, fez cara de bravo e falou: “Pára com isso, senão eu quebro seu outro braço.” Zé Alberto caiu na gargalhada, abraçando e beijando o Dudu: “Ah, moleque, você me mata de rir!” E saiu pra contar pro pessoal que não viu a cena: “Gente, olha como esse menino é custoso! Escuta essa...” Fiquei observando o Zé e pensando na história dele, que é o maior exemplo de superação que eu conheço. Ele trabalhava numa grande empresa de fertilizantes, e um dia sofreu um acidente de trabalho com uma máquina. Nosso ex-presidente faz todo um drama em torno do fato de ter perdido um dedo quando era operário. O Zé nunca fez drama a respeito de seu acidente, e ele não perdeu só um dedo. Naquele dia fatídico, ele teve o braço direito arrancado do corpo de forma tão violenta que perdeu parte da clavícula e da escápula, além de pedaços de várias costelas. Na época dessa tragédia eu trabalhava no Hospital Escola e conversei com os acadêmicos que estavam de plantão no dia em que o Zé foi levado pra lá. Sem saber que eu o conhecia, eles me contaram, de olhos arregalados, como tinham atendido um acidentado que chegou trazido pelo Resgate. Assim que o paciente foi colocado na maca da sala de emergência, os socorristas que o trouxeram depositaram no chão um balde ensangüentado. Nesse balde estava o braço inteiro do Zé, com os pedaços de ossos e músculos do seu tórax. Os acadêmicos contaram que o estrago na caixa torácica foi tamanho que dava pra ver o pulmão pela cratera que se formou. Depois de mais de um mês em uma UTI e de enfrentar uma difícil e lenta recuperação, hoje o Zé Alberto é mais ativo do que muita gente “inteira” que conheço. É difícil de acreditar, mas até capinar ele capina, só com o braço esquerdo. Mais do que sua recuperação física, que já considero um milagre, me impressiona a capacidade mental e espiritual de adaptação e de superação que ele tem. E mais do que isso, me encanta a forma leve que ele tem de encarar a nova vida e de se reinventar nessa nova condição. Com certeza não é fácil e com certeza ele teve (talvez ainda tenha) seus momentos de tristeza, de questionamentos e de desânimo. Mas esses momentos devem ser exceções, porque não me lembro de tê-lo visto triste ou reclamando, nem uma vez. Conversando com ele, só me lembro de sua deficiência quando ele mesmo a menciona, sempre fazendo graça. Como nesse dia da festa: começou a chover na hora de ir embora e ele, rindo, comentou que a vantagem dele era que podia sair na chuva que só molhava um braço.
Todos estamos sujeitos aos tombos da vida. Sujeitos às dores e às cicatrizes. Não se escolhe cair. Mas podemos escolher de que forma encarar os tombos. Pode-se simplesmente desistir e se deixar ficar ali estatelado no chão.  Ou, tão ruim quanto isso, pode-se escolher nem mesmo tentar. Com medo de cair, muitos perdem as alegrias do passeio e se tornam meros expectadores. Que Deus nos livre dos tombos. Mas se eles vierem, que nos ajude a levantar, montar de novo no cavalo e seguir viagem. Sempre em frente, meus amigos! Fé em Deus e pé no estribo!

3 comentários:

  1. Bom, há controversas... meus tombos, ou melhor, minhas "manobras" são todas calculadas. Nunca fiquei preso na árvore e nem cuspi terra kkkkk.
    Aqui não! Posso até não ser simpático, comigo não tem discurpa, minha criação é chucra, a verdade ninguem furta, sou bruto rústico e sistemático!!! kkkkkkkkkkkkkkk

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  2. JÁ QUE ABRIRAM A PORTEIRA DAS EXPLICAÇÕES DE TOMBOS INEXPLICÁVEIS, VOU DIZER PRA VOCÊS:

    1º BOATOS SOBRE O EXCESSO DE ALCOOL NO DIA DA QUEDA: ACEITEI FAZER O TESTE DO BAFÔMETRO, MAS NINGUEM SE DISPÔS, MESMO QUE ISSO IRIA CAÇAR MINHA CNH.

    2º A MÃE DO RAIO É ÉGUA DE CARROÇA. O PAI....KKKK...SACANAGEM,CHAMAVA-SE. "O CAVALO NUM TEM PAPELIII"

    3º SEGUE O LINK ABAIXO PARA OS MENOS ASTUTOS A EXPLICAÇÃO DA TERRA NA BOCA:
    http://super.abril.com.br/blogs/cienciamaluca/comer-terra-faz-bem/

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    1. Kkkkkkkkk! Franco de Deus, você me mata! To aqui rindo tanto desse comentário que até a May e o Hunter vieram ver se tava acontecendo alguma coisa comigo. "O cavalo num tem papeli" foi sacanagem mesmo, tadinho do Raio!Papeli num é tudo na vida não, meu fio!

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