quinta-feira, 5 de abril de 2012

Adeus, Peter Pan



Fui andando pela estradinha de terra e cascalho, que liga a casa do Luiz Henrique e da Luciene à casinha verde. Passei ao lado da represa, onde uma mãe pata nadava satisfeita, seguida por seus dois barulhentos patinhos. Passei pela grota onde corre um fio de água transparente e borbulhante, quase escondido pela sombra fresca de muitas árvores. Saí dessa sombra para o calor e a claridade azul do céu sem nuvens da manhã, e avistei a casinha verde, com sua cerquinha. O Holofote lá estava, selado, preso a um mourão da cerca pelo cabresto.


Quando ele chegou aqui era só um potro magricelo. Quem não entendesse de cavalos, olhando pra ele só via a rusticidade de um bicho que ficou meses solto no pasto, sem trato. Mas a nobreza do Mangalarga Marchador, a elegância das linhas, o porte gracioso, estavam ali, indiscutíveis, pra quem soubesse ver. Ele cresceu, ganhou corpo, e hoje as qualidades antes sutis enchem os olhos mesmo dos menos observadores. Com vinte e dois meses de idade, Holofote hoje se parece muito mais com o garanhão altivo que será do que com o potrinho delicado que vimos chegar de tão longe. Há duas semanas o Leandro e o Luiz Henrique vêm trabalhando com ele nos exercícios com cabresto, e ontem Holofote foi encilhado pela primeira vez. Com a sela, parece que ficou ainda mais bonito; o vermelho da manta e do cabresto contrastando lindamente com a pelagem tordilha. Ali parado, preso à cerca, com um olhar sereno e o vento despenteando sua crina, era uma cena sublime.


Mas, se vejo beleza, então porque sinto esse aperto, essa melancolia no coração? É que eu estava acostumada a ver o Holofote sempre livre, correndo pelo pasto com seus companheiros mais jovens. Será que existe criatura de alma mais livre do que um potro que nunca foi montado? O mundo era inteiro dele. Vê-lo solto, passando com seu passo marchado, todo agilidade, força e vigor, era de emocionar. Mas, agora... agora acabou a infância. Agora ele vai se acostumar a ter uma sela no dorso e um bridão na boca. Aos poucos vai aprender a obedecer aos comandos das rédeas, ao invés de seguir apenas seus impulsos e vontades. Quão triste é isso? Isso de deixar de ser selvagem? De deixar de ser criança?


Crescer é um pouco triste mesmo. É muito bom e muito necessário. Mas dói. Dói deixar pra trás a liberdade descompromissada de fazer o que se quer, quando se quer. Talvez por isso a gente não cresça com naturalidade. A gente reluta. Quer ser pra sempre selvagem. Não vai ficando civilizado assim, sem mais nem menos. Resistimos, às vezes com sofrimento, às vezes até com violência, e vamos deixando pedacinhos de nós mesmos pra trás, nessa batalha. Quem nunca foi adolescente que tente dizer o contrário. No fim do processo, surge um ser diferente, lapidado. Melhor? É... acho que melhor.


A verdade é que, mesmo sendo difícil, esse processo de doma é inevitável. O potro xucro é lindo e feliz. Mas só isso. Não tem serventia. E na roça tudo e todos têm que ser úteis para algo. O cavalo domado é útil. E pode muito bem continuar lindo e muito feliz. Depende do domador ensinar a ele que essa parceria com o homem não é assim tão complicada e pode até ser bem divertida. Só que ensinar não é fácil. Cansa e às vezes irrita. É por isso que admiro demais a paciência do Leandro pra trabalhar com os bichos. Repetindo um exercício muitas vezes, até o cavalo entender. Elogiando os acertos, corrigindo os erros com gentileza, mas também com firmeza. Conduzir um ser indomado pelo caminho do aprendizado, sem criar nele medos e ressentimentos, é um desafio enorme, seja esse ser cavalo ou gente.


Pra vocês entenderem como a coisa é complicada, vou dar alguns exemplos no campo da “doma de gente”. Acho que a minha casa é um ótimo exemplo de desafio de doma. Imagine-se no lugar da minha mãe: uma mulher que trabalhava fora em período integral e, quando chegava em casa, encontrava uma renca de criaturinhas completamente “xucras” e indóceis. Minha mãe é uma neta de italianos, muito expansiva e um pouco dramática, de alegrias fenomenais, mas também de iras homéricas. Nunca economiza nas risadas e muito menos nos palavrões. Delicadezas não são com ela. Ou seja, eu e minhas irmãs não tivemos uma “doma racional”. Era meio na bruta mesmo. Uma vez, numa de suas explosões de fúria (que, sejamos justos, geralmente tinham bons motivos, porque a turminha não era fácil), ela gritou com a Raquel: “Sua burra! Retardada! Idiota!” Não lembro o que a Raquel tinha feito de errado pra merecer os adjetivos, mas desde pequena ela não era de se intimidar fácil e emendou: “Mãe, você sabia que o pastor lá da igreja falou que quando você chama uma pessoa de burra, retardada e idiota, é como se você estivesse matando a pessoa?” E a minha mãe, ainda aos berros: “E ele não te falou que quando você fica burra, retardada e idiota você está matando a sua mãe?”


O maior medo que tínhamos era o de fazer ou falar alguma coisa perto da minha mãe que desencadeasse a sua famosa ladainha. A ladainha era terrível. Pior que os beliscões fininhos que ela sabia dar. Por exemplo: conto pra ela que perdi na escola um brinco que minha avó tinha me dado. Antes de eu terminar a frase, começa a ladainha, sempre num suave tom de voz que podia ser facilmente ouvido por todos os habitantes do quarteirão: “Meu Deus do céu! O que é que acontece com essas meninas? Eu falo pra elas toooodo dia! É SEGUUUUNDA, é TEEEERÇA, é QUAAAARTA, QUIIINTA, é SEEEEXTA, SÁBADO, DOMINGO! Todo dia eu falo pra elas tomarem cuidado com as coisas delas, mas não adianta! Não adianta falar toda SEGUUUUNDA, TEEEERÇA, QUAAARTA, QUIIIINTA, SEEEEXTA, SÁBADO e DOMINGO a mesma coisa, que elas não aprendem!” Ou então: ela chega do trabalho e vê que nosso quarto ainda não foi arrumado e continua com seu aspecto habitual de ilustração da teoria do caos. Lá vem, pode preparar os ouvidos: “Eu já falei mais de miiiiiiil vezes pra vocês arrumarem essa porcaria de quarto! Será possível? Eu tenho que falar toda SEGUUUUNDA, toda TEEEEERÇA...” e por aí seguia, interminavelmente.


Um dia desses, minha mãe encontrou uma amiga que não via há muito tempo. A amiga deu-lhe os parabéns: “Mas que maravilha, Mariana! Suas filhas todas se formaram bem, duas passaram em concursos públicos, duas médicas! Que beleza. Você deve ter se esmerado muito na educação delas...” Minha mãe contou essa conversa pra nós, toda orgulhosa, à mesa do almoço de domingo. E aí o Guilherme, meu cunhado: “Mas dona Mariana, a senhora contou pra ela o segredo desse sucesso?” “Que segredo?” “Que a senhora falava na cabeça dessas meninas toda SEGUUUUNDA, TEEEEERÇA, QUAAAARTA, QUIIIIIINTA, SEEEEEXTA, SÁBADO E DOMINGO, pra elas estudarem?” Risada geral!


Já o meu pai era um “domador” de menos conversa e mais ação. Uma vez a Raquel, quando tinha uns oito anos, foi colocar leite num pires, pro nosso gatinho de estimação e esqueceu o litro de leite no chão. Resultado: o gato bebeu do pires e depois passou a lamber o saquinho de leite. Quando meu pai chegou e viu a cena, um litro de leite quase cheio, desperdiçado porque o gato estava lambendo, chamou: “Raquel, vem cá.” Ela foi. E aí ele simplesmente virou o litro de leite na cabeça dela, sem explicações. A menina saiu correndo e chorando, e o meu pai correndo atrás e derramando o resto do leite, até acabar, na cabeça da infeliz.


Mas apesar desse sistema meio bruto (ou talvez até um pouco por causa dele) acabamos nos tornando pessoas crescidas, guerreiras e felizes. Uma sequelazinha ou outra ficou, com certeza. Certiiiinha, certiiiiinha mesmo, nenhuma de nós quatro é. Mas o que importa é que entre mortas e feridas salvaram-se todas.


Para domar um ser selvagem, também é muito importante saber usar a estratégia ao invés da força bruta. A dona Isabel sabe bem disso. Certa feita, o Fabiano, pré-adolescente na época, fez alguma coisa que merecia um castigo. Minha sogra, do alto do seu um metro e meio, deu-lhe uma bronca e resolveu que era o caso de usar de Psicologia. Psicologia era o apelido de um tamanco de madeira que ela tinha. Quando o Fabiano viu a mãe tirando o tamanco, percebeu que a coisa era séria e saiu correndo. Dona Isabel encurralou o fugitivo na cozinha, mas ele começou a correr em volta da mesa. Depois de umas cinco voltas na mesa, minha sogra viu que, com suas perninhas curtas, não ia alcançar nunca o menino. O que fazer? Estratégia, meus amigos! Ela mirou e... Vapt! Arremessou o tamanco, pregando a mão do Fabiano na parede com tanta técnica que, reza a lenda, o dedo que foi atingido é meio amassado até hoje. Acho que ela foi a inspiração daquela história das Havaianas de pau... Mas também criou uma família linda, unida e amorosa.




Voltando aos cavalos, o que me entristeceu quando vi o Holofote amarrado lá na cerca foi pensar que uma parte dele vai se perder. A parte selvagem. Aqueles pulos ferozes que ele deu, na primeira vez em que sentiu o arreio no lombo, e que puseram todo mundo pra correr do curral, nós não vamos ver mais. Não vamos vê-lo mais se levantar nas patas traseiras, brandindo as dianteiras no ar, em furioso desafio. Mas essa parte bravia era o que nos mantinha a distância dele. Era bela, mas era uma barreira. Era medo. Iniciado por mãos zelosas (sem Havaianas de pau!) ele vai continuar com seu temperamento exuberante, mas vai se tornar também amistoso. Deixa de ser perigoso, mas mantém o calor e o entusiasmo. Seria maravilhoso se todos conseguíssemos seguir esse caminho: crescer sem nos desvirtuarmos. Ganhar conhecimento e experiência sem perder de todo a inocência. Não carregar mágoas e medos, mas somente as alegrias do aprendizado. Encontrar o equilíbrio entre civilidade e um pouquinho de rebeldia, que nunca fez mal a ninguém. É um caminho acidentado, que não acaba nunca, mas pretendo trilhar por ele a cada dia, do jeito que minha mãe me ensinou: toda SEGUUUUNDA, e TEEEERÇA, e QUAAAARTA, QUIIINTA, e SEEEEXTA, SÁBADO, DOMINGO!


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