sábado, 14 de abril de 2012

Sem inspiração

Esse post era pra se chamar “era uma vez uma casinha verde”. Já estava mais ou menos pronto, na minha cabeça, e era pra ser bem descontraído e divertido. Só estava esperando a Inspiração chegar. Aí, ontem: “toc, toc, toc...”. Fui abrir a porta toda feliz, achando que era a Inspiração batendo, toda linda e fresca, envolta em seda e cetim, colorida e leve feito uma borboleta. Mas abri e não era ela. Fiz uma careta de decepção: “Ah, é você?” Era aquela outra. Veio vestida com um macacão de brim, meio sujo e desbotado, e calçada com uns tênis velhos. Os cabelos despenteados de sempre, e aquela cara meio amassada de quem acabou de acordar. Ai, que raiva que tenho da falta de glamour dessa aí! Mesmo sabendo que não tinha escapatória, ainda tentei: “Olha, sem querer ser mal-educada... você sabe que eu até gosto bastante de você, na maior parte dos dias, mas hoje eu estou tão cansada, trabalhei tanto e ainda por cima estava esperando outra pess...” Mas, como sempre, ela se fez de surda aos meus argumentos. A Realidade deu um sorrisinho amarelo, meio que se desculpando, e foi entrando sem ser convidada mesmo. Entrou e se espalhou. E tá aqui até agora me enchendo a paciência.
Então, fazer o quê, né? O post é sobre ela mesma. Essa intrometida, inflexível, insensível da Realidade. Vou contar pra vocês a brincadeirinha de mau gosto que ela fez comigo ontem. Foi assim:
O Leandro viajou há três dias pra Sorocaba. Foi fazer um curso de casqueamento e ferrageamento na Universidade do Cavalo. São mais ou menos cinco horas de viagem daqui até lá. Como o fusquinha não é a melhor escolha pra viagens longas e estradas movimentadas, ficou aqui comigo e o Leandro foi com o Palio. Beleza. Gosto demais do El Fuscón. No domingo à noite fui com ele pra igreja. O único problema foi que o limpador de pára-brisa não estava funcionando. Mas só choveu um pouquinho, então não tive muita dificuldade.
Na segunda-feira, lá fui eu trabalhar, com o Fuscolino. Embiquei para entrar no estacionamento da Unimed e acenei pro guarda, pra ele abrir a cancela. Mas ele tá acostumado a me ver chegar no Palio. Não reconheceu o Super Fusca, e não abriu. Apertei a buzina, mas quem disse que a danada funcionava? Ela é assim mesmo. Às vezes faz voto de silêncio, e não fala nem sob tortura. Nessas alturas já estava se formando uma fila de carros atrás de mim, porque a rua é estreita, então ninguém passava enquanto eu não entrasse no estacionamento. Fui ficando desesperada e já estava até esmurrando a porcaria da buzina quando vi passar uma colega. Gritei pra ela: “Chama o guarda pra abrir aqui pra mim, por favor!” E ela: “É só buzinar que ele vem!” E continuou seu caminho. Aí perdi o que me restava de elegância, pus a cabeça pra fora da janela e berrei: “NÃO TEM BUZINAAAAAA!” Pronto. O guarda ouviu e veio correndo abrir. Quando viu que era eu, fez uma cara meio assustada. Não sei se por causa do Fusca ou do meu berro. Mas tudo bem, o importante é que consegui entrar. Ou quase. A entrada do estacionamento é uma rampa estreita, em curva. A parede dessa rampa é riscada de diversas cores. São os riscos da pintura dos carros que raspam por ela afora ao entrar. Nunca tive dificuldade em passar por ali com o Palio e sua maravilhosa direção hidráulica. Mas com o Fuscão... Coitado, fazer curvas fechadas não é a especialidade dele. Sofri pra fazer o danado passar sem esfregá-lo na parede. Com muito custo estacionei. Mas aí lembrei que a rampa de saída é dez vezes mais difícil que a de entrada. Trabalhei a manhã toda com um medo horrível de que chegasse a hora de ir embora e pensando: “Como é que eu vou fazer pra tirar o Fusquete de lá? E se eu riscar a pintura dele? O Leandro me mata...” Me deu até dor de barriga de tanto nervoso. Chegou a hora de ir embora e lá fui eu, suando frio, pro estacionamento. Fazer rampa e curva ao mesmo tempo naquela rampinha estreita não foi fácil. Mas consegui! Vitória! Passei o resto do dia feliz, me sentindo um ás do volante. Aí não teve mais quem me segurasse. Fui pro ambulatório, pra aula de piano, enfrentei o trânsito do centro da cidade em horário de pico, tudo com o meu heróico Fusca azul. Passei os três dias bem feliz, dirigindo pra lá e pra cá.
 E aí ontem eu estava dentro do Fusquinha, na garagem aqui de casa, me preparando pra sair, bem tranqüila, quando toca meu telefone. Era o Fabiano. “Giselle, tenho que te contar uma coisa. O Leandro sofreu um acidente de carro lá em Sorocaba.” O quê? Será que entendi mesmo? Demorei longos segundos pra processar a informação e a única coisa que consegui falar foi: “É mentira. Você tá brincando, né?” “Não, pior que é sério. Ele bateu com o carro.” A voz dele foi ficando abafada do outro lado da linha. Eu só conseguia ouvir as batidas do meu coração, ressoando nos meus tímpanos. O ar ficou denso e pesado, e de repente ficou difícil respirar. O Fabiano continuou: “Ele tá bem, falou que só se machucou um pouco. Falei que ia lá pra buscar ele, mas tô tentando ligar de novo e o celular dele ta desligado.” Aí comecei a pensar mil coisas ao mesmo tempo. Como assim, se machucou só um pouco? O que é “só um pouco”? Quebrar um braço? Uma costela? Por que ele ligou pro Fabiano primeiro, e não pra mim? Por que o celular desligado? E já comecei a achar que ele tinha tido uma hemorragia interna ou um hematoma intracraniano e estava inconsciente, num hospital. Tentei controlar o pânico: “Vamos pra Sorocaba, Fabiano. Eu vou com você.” “Mas primeiro a gente tem que falar com ele. A cidade lá é grande. Eu não sei onde ele está.” Era verdade. Então comecei a ligar insistentemente pro celular do Leandro, que estava fora de área. Demorou mais ou menos uma hora e umas noventa e oito tentativas até ele atender. Quando ouvi a voz dele todo o meu autocontrole desabou e comecei a chorar. Acho que foi o alívio de perceber que ele estava bem mesmo. Ele me contou como foi o acidente, mas nem consegui prestar atenção nos detalhes. Falei que o Fabiano queria ir pra lá, mas ele insistiu pra não ir ninguém. Ia voltar pra Uberaba de carona com dois amigos.
Parece que demorou uma eternidade até ele chegar. Mas graças a Deus, chegou. Que alívio, que benção poder abraçá-lo, depois de tanta preocupação, de tanto medo. Fora um corte no supercílio, ele não se machucou. Deus é bom. Além de ter protegido o Leandro no acidente, ainda providenciou duas pessoas generosas pra trazer ele em casa, daquela distância. É nessas horas que vemos que ainda tem gente boa de verdade nesse mundo. O Leandro quis me mostrar as fotos que tinha tirado do nosso carro, mas não tive coragem de olhar.
Hoje de manhã resolvi dar uma olhada nessas fotos. O outro carro envolvido era um Monza, que atingiu de frente a lateral do nosso carro. A frente do Monza ficou simplesmente destruída. O nosso também ficou muito estragado. Um horror. Se o impacto fosse um pouquinho mais pra trás, no nosso carro, teria atingido diretamente o lugar do motorista e o meu marido poderia ter se machucado seriamente. Não quero nem imaginar.
Mais tarde, eu estava trabalhando quando o Leandro me ligou e me contou que o orçamento do conserto do outro carro envolvido no acidente chegou. Bem mais caro do que eu esperava. De repente me senti atingida por toda essa situação. Eu vinha tentando ser otimista, mas nessa hora comecei a pensar em como fui burra de não ter renovado o seguro do carro, e em quantas semanas, quantos meses de trabalho isso vai nos custar. Comecei a pensar nos nossos planos pra roça, coisas de primeira necessidade, que vamos ter que adiar. Me veio uma vontade incontrolável de chorar e tive que disfarçar e entrar no banheiro. Fiquei lá olhando no espelho, vendo meu rosto abatido e pensando em como estou cansada de ser forte, de ser serena. Cansada de tentar ver o lado bom de tudo que acontece. Cansada de sorrir diante das adversidades. De repente me sinto pequena, frágil e injustiçada. Só queria chorar. Chorar e quebrar alguma coisa. Sabe? Jogar na parede todos os objetos que eu encontrasse pela frente? Mas a Realidade não se comove e não se modifica com lágrimas. E se eu quebrar alguma coisa vou acabar tendo que pagar e não estou podendo. Então respirei fundo, lavei o rosto e voltei pra minha mesa, pra continuar trabalhando.
Desculpem, mas hoje o post não tem moral da história. Não tem final engraçadinho. Estou sem forças pra isso. Todas as minhas energias estão concentradas em enfrentar essa visitante que não convidei. Vai dar tudo certo, eu sei. Meu Deus querido não vai deixar que eu me desmantele por causa de um probleminha qualquer. Talvez amanhã, ou depois, eu já esteja achando graça disso tudo. Aí quem sabe vem a Inspiração, que era quem eu queria afinal de contas, e eu reescrevo tudo. Mas por enquanto, é o que temos para oferecer. Tchau.

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