segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Destino

Meu vício em leitura às vezes me leva a atitudes extremas. É só demorar um pouco pra ir à casa da Raquel, que é minha fornecedora oficial de livros emprestados, pra começar a devorar tudo o que estiver à mão. E assim acabo lendo coisas totalmente nada a ver, como “O Gene da Matemática”, que a Marisa usou no ensino médio e estava dando sopa na estante dela, ou “Aspectos da Psicanálise”, da época que minha mãe fazia faculdade. Se não achar nada, mas nada mesmo, posso chegar ao cúmulo de pegar um livro didático de História ou Geografia, da minha época de colegial. Isso porque prometi pra mim mesma parar de gastar horrores nas sessões de livros do Submarino e das Americanas. (Que saudade daqueles pacotões de livros, com cheirinho de novos, chegando pelo correio! Bons tempos...) Mas esses extremos de leituras esquisitas são exceções. (Lembrei de um paciente lá do Hospital Escola. O acadêmico estava fazendo a história clínica dele e perguntou: “O senhor bebe álcool?” E ele: “Só quando acaba a pinga.”) A Quênia uma vez fez a sábia observação de que a vida é muito curta pra gente conseguir ler tudo o que existe de bom, então pra quê perder tempo lendo o que é ruim ou mais ou menos?  Então normalmente eu faço uma lista de livros que realmente tenho vontade de ler, e vou garimpando atrás deles na biblioteca municipal, na casa da Raquel ou da Rô, ou em sebos.
Uma fonte de bons livros que ainda não consegui esgotar é a biblioteca que o tio Ademar deixou. A coleção ocupava um cômodo de uns 20 metros quadrados, se espalhando por infindáveis estantes que iam do chão ao teto. Nessas estantes, ao lado de numerosos volumes sobre lingüística, sintaxe e gramáticas as mais variadas (o tio era professor de Português), podia-se achar a obra completa de Érico Veríssimo, Jorge Amado, Machado de Assis e Drummond. Foi nessas estantes que encontrei, aos oito anos, o encanto do Sítio do Pica-Pau Amarelo, nos vinte e quatro volumes do Monteiro Lobato, que tanto li e reli que acabei ganhando de presente depois. E foi lá também que, na adolescência, fui apresentada a Raquel de Queiroz, Jorge Amado, Cecília Meireles e tantos outros. Sempre que íamos visitar os tios eu dava um jeito de me esgueirar pra esse cômodo mágico da casa. Entrava lá caminhando na ponta dos pés, com a sensação de estar invadindo um lugar sagrado, e era envolvida pelo odor de couro das poltronas e um leve cheiro de tabaco, dos cinzeiros que a tia Iêda mantinha impecavelmente limpos. Nas paredes, uma cópia do Dom Quixote de Picasso e um imenso tabuleiro de xadrez de madeira (foi nele que o tio Ademar me ensinou o jogar). Imponentes no alto de suas estantes, as centenas e centenas de livros me observavam com olhos invisíveis. Eu percorria delicadamente com o dedo as lombadas, com medo de despertar algum gênio adormecido que guardasse aquele tesouro. Enciclopédias, dicionários, uma gramática da língua tupi, e de repente “bam”: Capitães da Areia, ou Memorial de Maria Moura. Na hora de ir pra casa, minha mãe me procurava e me encontrava deitada no chão, mergulhada na Salvador dos anos 30 ou no sertão nordestino do século XIX.

Quando o tio faleceu, a tia Iêda se mudou da casa grande de bairro pra um pequeno apartamento no centro da cidade, que não comportava a extensa coleção de preciosidades que ele juntou durante toda a vida. Os filhos levaram pra suas casas as obras que mais gostavam, mas ainda sobrou uma infinidade de livros que ia acabar vendida pra sebos ou doada pra reciclagem. Na semana em que a tia Iêda ia se mudar, fui convidada pra ir à casa dela com meus pais e minhas irmãs, pra ver se tinha algum livro que quiséssemos levar pra nós. Chegando lá, eu imediatamente corri pra abraçar a coleção do Érico Veríssimo. “Graças a Deus... O tempo e o vento, os sete volumes, ainda estão aqui!” Pensei, apertando os livros contra o peito e tentando equilibrá-los no colo. Meu pai, bibliófilo e escritor, olhava pras pilhas de livros no chão, e pros já encaixotados, com tristeza. Balançava a cabeça, inconformado com aquele massacre iminente. Parecia estar vendo uma fileira de inocentes condenados à morte ou ao exílio. Não se conformou com essa injustiça e adotou a biblioteca. Desalojou a sala de estar da casa dele, deu um fim num jogo de sofá, numa TV e num rack, passou uma semana instalando prateleiras e de repente a biblioteca estava lá, respirando aliviada, salva. Tia Iêda também respirou aliviada. Porque acho que o convite pra nós irmos lá, os livros no chão... era tudo parte de um plano.
Com a biblioteca na casa dos meus pais, eu tive mais tempo pra procurar e encontrar livros bons de verdade. E foi lá que descobri, um tempo atrás, uns volumes muito antigos de Victor Hugo. Li “Os trabalhadores do mar” e fiquei deprimida um tempão, pensando se o mundo é realmente tão cruel como ele pinta. E mês passado, esperando a Rô terminar de ler o quinto volume das “Crônicas de Gelo e Fogo”, dei por mim enveredando por uma Paris medieval, com “O Corcunda de Notre Dame”. Fiquei tão revoltada com o final que sonhei com a história. Ou melhor, com a minha própria versão moderna da história. No sonho eu era a cigana Esmeralda e tinha mudado de nome e de país pra fugir da forca, e tinha uns agentes da CIA atrás de mim. Ah, e no sonho a cabra Djali, do livro, era a minha cachorrinha Frida Kahlo! Só eu mesmo... Bom, mas bobagens à parte, o livro me fez pensar muito sobre o tal do destino. Porque a história é assim: um monte de coincidências, de fatos que por um triz poderiam não ter acontecido, encontros e desencontros que acabam levando ao triste desenlace. A gente fica pensando: “Se ela não tivesse gritado nessa hora...” e “se ele não tivesse tido essa ideia logo agora...” Mas, como um dos personagens diz, é a história da aranha e da mosca que cai em sua teia. É o destino. A fatalidade. Factum. E não se pode escapar dele. Como a mosca na teia: quanto mais ela se debate pra se livrar, mais emaranhada fica. Será que é assim mesmo?
Fiquei pensando nisso por causa da tragédia dessa semana. Perdemos nossa querida Florencinha. A nossa doce e meiga eguinha felpuda. Não consigo parar de pensar nas várias possibilidades que houve de evitar o acontecido. Se o Fabiano não tivesse resolvido dar banho nela naquela hora... Se ele não tivesse deixado ela amarrada bem naquele lugar da cerca... Se já tivéssemos separado a Morena em outro piquete, agora que já está tão próxima do fim da gestação... Se eu tivesse levado a Morena pra passear ou levado as cenouras dela um pouco antes... Um monte de “se”, que não pára de me atormentar. Mas o fato, a fatalidade é que ela se foi.
A Lu, cunhada do meu tio, estava grávida de três meses e teve um aborto espontâneo essa semana. Tentando conter as lágrimas, ela foi explicar pro seu filhinho de cinco anos que o irmãozinho que ele esperava não ia mais chegar. E o Pedro a abraçou e saiu com essa: “Fica triste não, mamãe, é que Deus tem muita coisa pra fazer. Pensa o tanto de gente que ele tem pra olhar. Vai ver que ele tava ocupado, não deu pra ele cuidar do irmãozinho.” Fiquei “de mal” com Deus por um tempo, por causa da Florença. “O que custava o Senhor evitar isso?” falei pra Ele. “Ela estava tão saudável, tão bem cuidada... E aí um coice, uma perna quebrada, e tudo termina assim, desse jeito horrível? E não me venha com a desculpa de que estava ocupado, não, que comigo não vai colar.” Fiquei com uma raiva imensa da Morena . Essa semana não teve cenoura e nem passeio. E de um jeito estranho também consegui me sentir meio culpada, por ser dona da Morena...
Com muita paciência, Deus foi me explicando que tem tristezas que fazem parte da vida, mesmo. Que não adianta eu espernear e reclamar: tem coisas que não posso controlar. Muitas vezes fazemos tudo certo e o resultado é todo errado (ou pelo menos errado aos nossos olhos limitados). Que depois de tanto tempo nessa profissão que lida com nascimento e morte, com o ciclo da vida, já era pra eu ter aprendido a não sofrer tanto diante de finais tristes. Mas a morte é um negócio que a gente não acredita de verdade que existe, até ela nos dar um safanão. A gente passa um tempo atordoado, assustado... aí o tempo passa e a gente esquece de novo que ela existe. Acabei fazendo as pazes com Deus.
Destino ou não, essa foi a nossa primeira perda aqui na roça e ficou um gostinho amargo. Mas ao mesmo tempo tem muita coisa boa acontecendo. Uma delas é o novo membro da família: a Frida, uma fofura de Border Collie que, estamos desconfiados, pode ser que seja o exemplar mais burro da raça mais inteligente que existe. No próximo post conto um pouquinho sobre essa e outras alegrias. Ah, e nunca, mas nunca mais mesmo eu leio nada do Victor Hugo, nem que eu tenha que ler a lista telefônica ou dicionário de grego... ô francesinho de mal com a vida! Credo!

Nenhum comentário:

Postar um comentário