sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Um pouco sobre Frida Kahlo, El Zorrero, a incrível poddle e o Raio-que-o-parta

Logo que começou a mexer com cavalos e construiu as baias, o Fabiano comprou o Raio, um castrado branco, grande e imponente, mas ruim de sela como poucos. Uma vez o seu João pegou o Raio emprestado e quando apeou, veio manquitolando e puxando o bicho pelo cabresto: “O trote deste ‘animali’ chega adoecer a gente...” Raio é manso e amigável como um cachorro labrador, e tem a energia de um labrador também. Não sabe andar devagar, no passo. Gosta de corridas e galopes, e é preciso ter uma mão firme nas rédeas pra conseguir mudar a opinião dele quanto ao trajeto a ser seguido.  
Nas primeiras vezes em que o Franco e a Regina foram visitar as baias, ela já se apaixonou pelo Raio. Nascida na roça e acostumada com cavalos de variadas índoles, ela não teve dificuldade de montá-lo. Na verdade, acho que o Raio é que não teve dificuldade, porque Regina não faz questão nenhuma de comandar a montaria. O que o Raio queria fazer, ela deixava, e achava graça: “Olha, gente, ele fica andando em círculos! Que cavalo doido!” “Regina, pára com isso e vem pra cá que a cavalgada já vai sair!” “Mas não sou eu, é o Raio que não quer ir...” E no meio da cavalgada, se de repente se ouvisse um tropel, podia saber que era o Raio que resolveu sair desembestado no meio do povo. O Leandro tentou explicar pra ela que, quando se está junto com muitos cavaleiros, é preciso ter mais prudência. Ela concordou. Um instante depois, ouve-se de novo o tropel e o Raio passa disparado, se desviando por um triz de uma égua velha, tirando fino de um pônei, e a Regina em cima rindo e gritando: “Prudência, Raio! Prudência!”  
Pouco tempo e muitas catiras depois, Regina ganhou o Raio de presente do Franco. Acho que esse cavalo nunca teve vida tão boa. Toma banho toda semana, com direito a xampu e condicionador. Ganhou uma sela nova, ligas de trabalho e até um upgrade no nome: agora é Raio de Luz. Aqui a gente o chamava de Raio-que-o-parta, mesmo, coitado, por causa do trote duro e da mania de derrubar o cavaleiro de vez em quando.  
Quando Regina e Franco vêm nos visitar, Franco às vezes vem montando a linda Kiara, uma dócil mangalarga marchador; às vezes a enérgica quarto de milha Predileta; e outras vezes um outro cavalo que esteja amansando. Mas Regina não abre mão do seu querido Raio. Defeito nele ela não vê nenhum. Eu não posso falar nada, porque sou do mesmo jeito com a Morena. Não ligo de ela ser esquentada e nervosinha. Perdôo as mordidas e as espanadas com o rabo (quando perde a paciência comigo ela tenta me espantar como se eu fosse um mosquito!) e não reclamo nem da crina espetada, que condicionador nenhum dá jeito.  
Mas tem outro companheiro da Regina que eu sempre admirei. A Belinha. O pessoal da roça geralmente tem cães de trabalho: os caçadores natos foxhounds, ou blue heelers e border collies que ajudam na lida com o gado e são companheiros nas cavalgadas. Mas quis o destino que a Regina encontrasse na rua uma mestiça de poodle abandonada. Belinha é um bichinho alegre e brincalhão, mas muito obediente. Sua paixão e gratidão à nova dona são tão fortes que devem ter alterado seu código genético. Nunca ouvi falar de um poodle que corre por mais de três horas seguidas ao lado de um cavalo e atravessa rios a nado pra acompanhar o dono. Começamos a chamar a Belinha de border poodle ou brown heeler: a pobrezinha um dia já foi branca, ou champagne, como prefere a Regina, mas hoje vive marrom de terra e lama e sempre coberta de carrapichos. Mas como limpeza não é sinônimo de felicidade, Belinha é uma cachorra realizada. Foi observando a lealdade e a alegria desse bichinho que me veio a vontade e a decisão de ter um cachorro na roça.
A idéia inicial foi do Leandro. Eu fiquei meio com o pé atrás, no começo, porque já temos o Hunter e a May, e arrumar mais um cachorro... Mas a May teve esse problema do câncer de pele e está proibida de se expor ao sol. E o Hunter quando anda três quarteirões começa com uma falta de ar de dar medo... ronca como se fosse um porcão gordo. O Leandro insistiu, pesquisou as características das raças, e resolveu que queria um border collie. Quando, recentemente, o Franco comprou um filhote de border de pelagem totalmente atípica, todo branco, só com as orelhas pretas e uma máscara preta em volta dos olhos, e o batizou, obviamente, de El Zorrero, minha resistência foi ao chão e concordei em irmos atrás de um filhote pra nós. Fiquei tão decepcionada quando soube que todos os irmãozinhos da ninhada do Zorrero já estavam vendidos, que arquivei a idéia do cachorro e decidi esperar mais uns meses pra pensar nisso de novo. Aí uma semana depois o Leandro me liga enquanto eu estou trabalhando no ambulatório: “Amor, tem uma ninhada de borders à venda.” “Meu bem, vamos deixar isso pra depois? Agora a gente ta tentando economizar, não ta?” “É, mas os pais desses cachorrinhos são de muito boa linhagem, depois talvez a gente não ache uma ninhada assim.” “Mas, amor... eu preferia esperar. Não queria gastar dinheiro com cachorro agora...  a gente conversa quando eu chegar em casa, pode ser?” Aí ele usou o golpe fatal: “Tá bom, não precisa decidir agora, então. Mas vamos lá comigo só pra você ver os filhotes?” “Só pra ver?” “Só pra ver.” E eu caí como uma pata: “Então tá.”
Descemos as escadas que levavam ao quintal gramado e de repente me vi cercada por oito bolotas de pura energia coberta de pêlo fofo e lustroso, que pulavam, lambiam e mordiam a barra da minha calça sem parar. Olhei pro Leandro desamparada, e ele, com aquele irritante olharzinho brilhante de triunfo, cruzou os braços e perguntou: “E então, qual você vai escolher?”
Mas até escolher o malvado já tinha escolhido. E sabia antecipadamente que eu ia escolher o mesmo, por motivos diferentes dos dele. Ele queria uma fêmea preta e branca ou tricolor, com pelagem bem típica e pêlo longo. Eu vi a menorzinha da ninhada, a última a nascer, cheia de energia, mas um pouco mais tímida que os irmãos, e com os olhos mais doces do mundo. Peguei a bebezinha no colo e ela aninhou a cabeça no meu pescoço. “Ái, meu Deus... Será que estamos fazendo a coisa certa? Será que ela vai se adaptar com a gente, com os nossos cachorros?” A dona dos cãezinhos, uma loira alta, de jeans e botas de montaria, sorriu, segura: “Claro que sim. Vocês vão ser muito felizes com ela. Só precisam pensar num nome...” “Frida.” Falei, enquanto ganhava uma lambida no nariz, pensando na mexicana tão frágil e tão forte, que pintava uma realidade trágica e colorida, parecida com sonho. “Frida Kahlo. Sempre achei esse nome tão sonoro...”  
Frida me conquistou no momento em que pus os olhos nela, mas parece que a cada dia me apaixono mais por essa coisinha fofa. Não sei se ela vai fazer juz à fama da inteligência da raça. Tenho sérias dúvidas quando vejo ela brigar com o próprio reflexo no espelho, dar cabeçadas no boxe de vidro do banheiro e chorar tentando passar pela cerca de tela, quando só teria que dar a volta pra achar o portão aberto. Algumas coisas ela já aprendeu. Quando o Leandro acorda cedinho pra ir tirar leite, ela o segue satisfeita até o curral. Mas é só se sentir ameaçada por alguma vaca mais brava que volta pra me chamar e me acorda pulando na cama com as patinhas sujas de barro. Não há mais possibilidade de eu dormir até mais tarde! Frida também já aprendeu a nos seguir nos passeios a cavalo e sabe que se ficar cansada é só chegar do lado da Morena e dar uns ganidinhos, pra ganhar meu colo e descansar um pouco na cabeça do arreio. Já sabe que não pode entrar na horta sob nenhum argumento e me espera sentadinha no portão, enquanto eu cuido dos canteiros. 

Meu pai conta de um amigo dele que sonhava em ter um caminhão pra viajar pelas estradas, e poder parar nas beiras dos rios e nadar. Então ele comprou um calção de banho porque aí ficava fácil: só faltava comprar o caminhão. Eu estou mais ou menos assim. A cachorra de apartação eu já tenho. Só falta comprar o gado pra ela apartar! Mas isso é apenas um pequeno detalhe! Por enquanto ela pode ir treinando com o meu vasto rebanho de seis bezerros e a vaca Matuta. Êita nóis!


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