segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Ventos de mudança

Na primeira vez em que eu e o Leandro fomos, a cavalo, até o sítio do Luís Henrique, não sabíamos direito o caminho. Fomos andando por estradinhas de terra, passando por pontezinhas precárias de madeira, atravessando pastos. Enquanto procurávamos o caminho certo, ele foi me contando sobre o pessoal lá do sitio. Contou que a esposa do Luís Henrique, a Luciene, era gente boníssima, e trabalhava como agente de saúde em Santa Rosa. Eles moravam no sítio desde que se casaram, e tinham uma filha única, de uns vinte anos, a Laila. Na ausência de um filho homem, Laila assumiu as funções de ajudante do Luís Henrique na lida com o gado, ordenha, apartação, enfim... todo o serviço do sítio. Estudava em Santa Rosa, mas nunca morou na cidade. “Ah, eu preciso te avisar...” o Leandro me falou “Toma cuidado com a Laila...” “Tomar cuidado? Mas por quê?” “Ela é um pouco brava. É boazinha, mas quando não gosta de alguém...” “Como assim? O que pode acontecer se ela não gostar de mim?” Leandro coçou a cabeça, por baixo do chapéu de palha: “Então, quando a gente era criança... e ela ficava irritada comigo ou com meus irmãos... ela batia na gente.” “Meu Deus! Mas agora ela é adulta, né? Não deve bater mais nas pessoas!” Leandro fez uma cara de “não sei, não”, e pôs o cavalo a trote. Eu fiquei pra trás, pensando em dar meia volta e ir embora. Já não bastava o risco de ficar perdida no meio desses matos, agora ainda posso apanhar da prima cowgirl nervosa? Já imaginei uma figura fortona, com cara de poucos amigos, mascando fumo e cuspindo no chão. Mas, apesar dos riscos, prossegui. Estava mesmo difícil achar o caminho, então resolvemos parar em alguma chácara e pedir informações. Avistamos uma casinha azul em cima de uma colina, de pintura meio desbotada pelo sol, com varanda na frente e roupas balançando ao vento, num varal. (Preste atenção nessa casinha, ela será importante em histórias futuras.) Como a janela da frente estava aberta, achamos que tinha gente em casa e chamamos “Ô de casa!”, batemos palmas, até cansar, mas ninguém respondeu. Só o vento assoviando pela janela. Toca pra frente então. Paramos na próxima chácara e, enquanto um vira-lata malhado latia furiosamente pra nós, o morador nos explicou como chegar até a casa do “Riquinho”.
Algumas porteiras e mata-burros depois, avistamos a casa grande, avarandada, cercada por árvores-da-fortuna, abacateiros e pés de laranja. Apeei e estava amarrando o cabo do cabresto no mourão da cerca, quando corre pra mim uma moça alta e esguia, de cabelos castanhos ondulados e enormes olhos verdes, com o sorriso mais cândido e luminoso do mundo. Já foi me dando um beijo no rosto e falando: “Que lindo o seu cavalinho! Como é o nome dele? Deixa que eu amarro pra você!” Olhei pro Leandro, levantando as sobrancelhas, com cara de “não acredito! Essa é a menina que te batia?” mas ele franziu a testa e fez cara de “Cuidado! Pode parecer uma fadinha, mas tem um direto de esquerda...”
Luciene nos esperava na varanda, com bolo de fubá e café quentinho, e com o mesmo sorriso largo da filha. Eu tinha uma ideia errada e meio preconceituosa de que toda mulher que mora na roça era pra ser desarrumada, desleixada com a aparência. Imaginava que a Luciene seria uma senhora despenteada, descalça, talvez com um dente faltando! Então fiquei surpresa de ver aquela mulher bonita, de cabelo bem escovado, vestida com jeans justo e camisete e calçada com elegantes botinhas de cano curto.  Logo chegou também o Luís Henrique. Pequeno e magro, com aquele andar meio gingado de peão, um chapeuzinho mole de couro na cabeça, a barba grisalha. Seus olhos verdes, um pouco mais claros que os da Laila, têm um brilho de esperteza. Olhos sorridentes. Conversamos a tarde toda, naquela varanda. Nem vimos o tempo passar. Comemos o bolo e um queijo maravilhoso que a Luciene faz e escutamos os causos do Luís Henrique. De repente a Laila dá um pulo: “Esqueci de apartar as vacas!” E sai correndo, descalça. O cavalo dela, um palomino chamado Silver, estava amarrado na cerca. Ela jogou uma manta no lombo do bicho, desamarrou o cabresto e, enquanto o cavalo já saia a trote, saltou pra cima dele com agilidade circense. Luciene gritou pra ela: “Não vai pôr o arreio nele?” Laila, que já se afastava no galope, olhou pra trás e perguntou: “Pra quê?” com um trejeito espantado, como se a mãe tivesse sugerido a instalação de um air-bag ou de um pára-quedas.
Ficamos por ali ainda um tempo, ouvindo a Luciene contar sobre o trabalho dela como agente de saúde. Ela visita as famílias, reúne informações, ensina, orienta. Às vezes com alguma dificuldade, porque o pessoal mistura muito as crendices com as orientações médicas. “Está melhorando”, ela falou, “hoje em dia o povo daqui tem mais acesso a informação, é mais orientado. Mas de vez em quando a gente tem que rir. Dia desses uma senhorinha veio toda feliz me contar que não bebia mais água da cisterna, porque já tinha ‘poço anestesiano’!”.
Quando resolvemos ir embora, já estava escurecendo. Escurecendo e esfriando. Nesses lugares perto de rio, pode ter feito um calor danado durante o dia, que é só ir entardecendo pra temperatura baixar de repente. Luís Henrique salvou o dia me emprestando uma blusa de frio e nos guiando até uma parte do caminho que conhecíamos melhor. Foi trotando devagarinho, no seu cavalinho baio “duro de sela, mas bão demais de toada”, nas palavras dele. Quando o Leandro ameaçava andar mais depressa, Luís Henrique zangava: “Vamo devagar, Leandro. Quando tem mulher junto tem que ir devagar, pra ela não cansar. Se bem que tem mulher que é mais dura que os home. A Laila é uma... Já vim muito lá de Uberaba até aqui, com ela, no galope, e ela nem cansa. Ê Laila véia... é forte, a danada. Eu andava com ela nesses pasto, atrás de gado, ela pequenininha... às vezes reclamava que tava com frio e eu falava: Minha fia, não fica falando que tá com frio. Pensa que tá fazendo calor, pensa no calor que ocê se esquenta. Tadinha...” Seu semblante era sério, pensativo, decerto se perguntava  se não seria melhor ter dado uma vida de mais conforto pra menina. Mas à luz do luar, vi que seus olhos claros, quase cinzentos, brilhavam de orgulho da filha.
Depois que o Luís Henrique se despediu, eu e o Leandro seguimos lado a lado, às vezes de mãos dadas, pelo restante do trajeto até as baias. A lua estava tão clara que fazia sombras, como se fosse de dia. “Já pensou, amor” ele falou, “Já pensou se a gente viesse morar por aqui, na roça? Quando fizesse uma noite clara assim, a gente ia sair pra andar a cavalo, juntos, e ia ficar olhando o céu, passeando e namorando...” Não, eu não tinha pensado. Mas comecei a pensar. E continuei pensando pelo caminho, ouvindo o ploc-ploc dos cascos na estrada de cascalho, os pios das corujas e os “amanhã-eu-vou” dos curiangos. Pensei, pensei e não encontrei nenhum bom argumento contrário. Até esse momento, as baias, os cavalos, os passeios, eram pra mim uma grande diversão. Não passava disso. Eu não tinha pensado na possibilidade de mudar de meu estilo de vida, de morar num lugar meio ermo, longe das facilidades da cidade. Com o Leandro trabalhando com os cavalos, morar na roça parecia uma alternativa interessante pra ele. Mas e pra mim? O que isso ia significar? “E se a gente viesse morar aqui?” O que ia mudar? Do que eu teria que abrir mão? O que a família, os amigos, o que todo mundo ia pensar?  Mas as dificuldades, as opiniões alheias, as dúvidas foram se dissipando sob o efeito daquele misterioso luar, e voaram para longe, levadas por aquele mesmo vento que balançava as roupas no varal da casinha azul. No lugar delas, uma vontade, uma certeza começou a se enraizar no meu coração. Um plano de vida começou a se delinear, ainda nebuloso, e aparentemente cheio de obstáculos. Mas aprendi nas cavalgadas noturnas que a maioria dos obstáculos não passa de ilusão; são sombras que o nosso medo e insegurança transformam em perigos. Resolvi então seguir as recomendações que o Luís Henrique fez quando saímos da casa dele: firmeza nas rédeas; olhar atento na estrada; nada de pressa, pra evitar tropeços... e enveredei - ploc-ploc-ploc - por essa nova estrada. 

A linda Laila


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