terça-feira, 18 de setembro de 2012

A guinada

Assim que a casinha verde ficou em condições de uso, depois da reforma by Uncle John, que incluía um encanamento com tantas emendas que mais parecia uma colcha de retalhos e portões que faziam questão de não ter nenhum ângulo reto, começamos a mobiliá-la. Fomos levando um sofá velho que estava lá nas baias, uma geladeira velha que uma das tias doou, um fogãozinho industrial de duas bocas que era da minha mãe... O Leandro instalou umas prateleiras. Dei uma limpeza num velho carretel gigante, destes de cabos elétricos, e ele virou uma mesa. Como não tinha muito espaço, instalamos uns suportes pra guardar selas no nosso quarto mesmo. Ficou bem prático, porque podíamos passar as selas pela janela, pra selar os cavalos ali mesmo, mas o quarto ficou com um cheirinho de suor de cavalo que vou te contar!
A ideia era que fosse um lugar de lazer. Um lugar pra gente relaxar nos fins de semana. Mas foi mais ou menos nessa época que o Leandro parou de trabalhar com a loja e começou a fazer os cursos de doma. Ele tinha comprado uma égua Quarto de Milha alazã, muito linda, mas muito brava. Lá nas baias, por duas vezes ela arrebentou a cerca no peito e fugiu. Demos a ela o nome de Malagueta, sob os protestos do Luiz Henrique, que explicou ser muito errado a gente dar nome com conotação de ferocidade aos animais, porque aí “o caboclo quando vai montar, já vai meio ressabiado, e o bicho percebe e fica mais atentado ainda.” Mas o Leandro tinha gostado muito do nome e ficou Malagueta mesmo. Ele começou então a trabalhar com a doma da Malagueta, primeiro lá nas baias do Fabiano, e depois na casinha verde. Passava o dia todo lá, e além do que já sabia dos cursos, foi aprendendo mais com o Luiz Henrique, que é domador antigo, lá da região. Luiz Henrique sempre estava com um cavalo pra domar, pra acertar rédeas, e o Leandro ia ajudando. Assim, foi aprendendo a aliar a sabedoria antiga, os truques e manhas que os anos de experiência trazem, às técnicas e sutilezas da doma racional, ou doma gentil, como agora se fala. Acabou que também ensinou muita coisa pro Luiz Henrique.
O tempo foi passando e a Malagueta foi ficando tão mansinha, tão amiga, que parecia uma cachorrinha. De tão mansa, chegava a irritar. Vinha esfregando a cabeça nos braços, no rosto da gente, pedindo cafuné. Atendia pelo nome quando o Leandro ia chamá-la no pasto, e vinha trotando ao lado dele, sem precisar de cabresto. Foi ficando também muito boa de rédeas, “leve de boca”, como o pessoal de lá diz. Em pouco tempo apareceu uma proposta de compra e foi com muita tristeza que vi a doce Malagueta ir embora.
Mas o pessoal começou a comentar sobre o trabalho do Leandro e logo um amigo trouxe uma nova missão pra ele: o Terremoto (mais um nome pra entristecer o Luiz Henrique!). O Terremoto era um marchador lindo, que nosso amigo Alfredo comprou, mas que logo percebeu que ia dar trabalho. O bicho já tinha mandado uns peões pro chão e era tão nervoso que só de chegar perto ele começava a bufar e escarvar a terra, como se fosse um touro bravo (daí o nome!). Com muita paciência, o Leandro foi trabalhando com o Terremoto, ganhando a confiança dele... Hoje esse cavalo continua um bicho “esquentado”, que exige certa atenção, mas o Alfredo vai pra cavalgadas, todo orgulhoso, com ele. E apresenta o Leandro pros amigos dizendo: “Esse é que é o psicólogo dos cavalos, que eu te falei.”
Foi aí que o Leandro começou a pensar no trabalho com os cavalos como profissão.  Mas, pra trabalhar, precisava de uma estrutura melhor: redondel, pista, baias... E como fazer tudo isso em um lugar que não era nosso? E ainda por cima tão longe da nossa casa? Era um dilema que não conseguíamos resolver. Mas o pior de tudo é que tínhamos acabado de investir todas as economias e mais um monte de dinheiro emprestado na loja, que nesse momento ainda não dava retorno algum, e que, depois da saída do Leandro, virou a orquestra de um homem só nas mãos do Marquinho, que não quis desistir do negócio de jeito nenhum (nas palavras dele, o projeto da loja era um filho pra ele) e passou a ser gerente, vendedor, planejador, empacotador, entregador, tudo ao mesmo tempo.
De qualquer forma, a casinha verde já tinha se tornado o local de trabalho do Leandro e, como ele passava muito tempo lá, eu acabava indo também, sempre que podia.  Nos fins de semana sempre estávamos lá mesmo, mas comecei a ir também durante a semana e dormíamos lá muitas vezes. De manhã, eu acordava um pouco mais cedo e pegava a estrada pra vir trabalhar. Ir dormir ouvindo apenas os grilos, os sapos na represa e o vento nos eucaliptos, acordar com o canto dos galos, jantar arroz com ovo recém colhido do ninho, alface e rúcula fresquinhas da horta, de repente virou uma deliciosa rotina. Eu me pegava triste sempre que tinha que voltar pra cidade. Pegar a estrada pra ir pra roça começou a ter um sabor de voltar pra casa. Minha família já começava a ficar meio ressabiada com isso, porque eu falava muito, e com muito entusiasmo, das coisas da roça, do novo trabalho do Leandro, e fui ficando com fama de maluquinha. Meio que brincando, minhas primas pediam pra ver minha mão, pra ver se eu estava com calos de tanto capinar, se tinha terra embaixo das unhas. Minha mãe falava que eu ia acabar ficando igual a uma velha conhecida dela, que mudou pra roça e só andava suja, e era até uma mulher estudada, coitadinha...
Mais ou menos nessa época, o Franco, primo do Leandro, personal trainer e um carinha muito descolado, baladeiro e popular, mas que ao mesmo tempo desde menino sempre gostou do campo, namorava a Regina, que é nutricionista (estudada, como diz minha mãe), mas que viveu a infância na roça. Os dois conversaram, pensaram e tomaram uma decisão, aos olhos de muitos, insana: resolveram se mudar para o sítio do pai do Franco. E estavam muito felizes e satisfeitos. Tiveram um monte de dificuldades no início: esquece de comprar pão, pra ver! E até hoje eles passam uns apertos: ir trabalhar de moto, por estrada de terra, em dia de chuva é de matar. Mas tudo é compensado pelo sossego, pelas alegrias dessa vida diferente.  
Bom, aí eu e o Leandro começamos a pensar, a conversar, a pesar prós e contras, e decidimos. Resolvemos dar uma guinada na vida e ir morar na roça. Não foi uma “jogada de tudo pro alto” de alguém cansado demais, estressado ou que simplesmente não tem outra opção. Não foi uma “chutada de balde”, não. Até porque eu estava bem profissionalmente, com dois empregos bons. E o Leandro também não teria muita dificuldade pra trabalhar com outra coisa, se quisesse. Simplesmente pesamos tudo e vimos que seríamos mais felizes e mais realizados assim. Também não era uma loucura tipo: “largar tudo, sem olhar pra trás”. Traçamos todo um plano de ação, até porque precisávamos de dinheiro pra comprar um pedaço de terra, construir a estrutura de moradia e trabalho. Então a melhor solução seria mesmo vender nossa casa.
No dia em que contei pros meus pais essa decisão, esperava mesmo uma certa resistência, mas a reação do meu pai foi um pouco pior do que eu esperava. Ele ficou bravíssimo e falou que eu e o Leandro éramos dois “cabeças leves”, seja lá o que isso for. E que onde já se viu vender uma casa boa pra comprar terra? Que nunca na vida dele ele viu alguém ganhar dinheiro com trabalho rural. “Mas pai, não estamos pensando exatamente em ganhar dinheiro...” Aí é que ele ficou mais nervoso: “Ah, meu Deus! Então vocês estão pensando em quê?” Em ser feliz? Em aproveitar a vida? Como, meu Deus, como explicar isso pra ele sem ele pensar em me internar no Sanatório Espírita? Se isso fosse há alguns anos, eu teria me desmantelado toda e saído da casa dele aos prantos, me sentindo um nada. Mas tem um tempo que aprendi a parar de tentar agradá-lo a qualquer preço. Quando a Marisa prestou vestibular de Medicina e ficou em 41º lugar, sendo que havia 40 vagas, e nós fizemos a maior algazarra dando os parabéns pra ela, meu pai falou: “Não sei por que vocês estão dando os parabéns, se ela não passou.” E ela: “Mas pai, sou a primeira da lista de espera. É claro que eu vou ser chamada.” Ele respondeu: “É, pode ser. Mas você não passou.” Ou seja: não tem jeito. Assim, sorri meu melhor sorriso resignado, mas resisti ao velho impulso de pedir desculpas por ser quem sou e não quem se espera que eu seja. Fui embora um pouco triste, mas muito leve. No dia seguinte a placa de “vende-se” estava na porta da minha casa.  

Meu quarto na casinha verde: a vista da janela compensa o cheirinho das selas!


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