quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Orgulho, preconceito e couve-manteiga

_ Mas por que, Gi? Você é ótima profissional, tão competente... Por que você não quer abrir consultório?
Quem pergunta, indignada, é minha querida amiga Pri, que fui visitar em sua casa nova em Igarapava. Pri e eu fizemos faculdade juntas, passamos juntas pelo inferno do internato, fizemos residência de GO juntas (só um pouquinho pior que o inferno do internato), rindo uma da outra, ajudando, apoiando e defendendo uma à outra. Éramos inseparáveis. Mas depois de terminada a residência, nossos caminhos foram ficando distintos.
Pri foi pra uma cidade menor. Casou. Teve um filhinho lindo. Abriu um consultório que está sempre cheio. Além do consultório, trabalha em mais uns três empregos. Fez uma super reforma na casa nova que comprou, com direito a piscina, banheira de hidromassagem, área de lazer com churrasqueira e um closet que me deixou de queixo caído. É tão querida pelas pacientes que, quando parou de atender na Santa Casa, teve até manifestação, com faixa pendurada na fachada do prédio e tudo, pedindo pra ela voltar.
Eu até comecei um caminho parecido. Casei. Fui pra uma cidade pequena. Abri consultório e arrumei mais três empregos. Trabalhava de dez a quatorze horas por dia. Tinha agenda cheia no consultório. Era muito elogiada pelas pacientes. Tudo ia bem. Mas então por que eu não estava feliz e satisfeita? Por que vivia estressada e triste? Depois de um ano, surgiu uma proposta de trabalho na Universidade de Uberaba. O salário era pouco menos da metade do que eu ganhava. Pensei, conversei muito com o Leandro e decidi. Fechei o consultório, pedi demissão do emprego na prefeitura e voltei. Depois comecei a trabalhar também em unidades básicas de saúde, atendendo pelo SUS, mas não voltei a abrir consultório. Por quê? Porque amo minhas pacientes do SUS. Adorava as mulheres simples de Delta. Bóias-frias, faxineiras, garis, motoristas, donas de casa, que colocavam suas melhores roupas pra ir à consulta. Adorava ganhar pão de queijo e frango caipira como agradecimento, das pacientes de Sacramento. Também porque o consultório aqui em Uberaba seria um investimento a longo prazo. Os gastos seriam imensos pra montar, e só depois de alguns anos é que começa o retorno, que também não é muito. (Sabe quanto o plano de saúde paga ao médico por uma consulta? Se não, procure saber). Outro porém: quem tem consultório de obstetrícia tem que estar preparado pra atender telefonemas tarde da noite e correr pro hospital a qualquer momento, de madrugada ou nos fins de semana, mesmo que se tenha que largar o marido sozinho num restaurante, no meio de um jantar (como eu já fiz algumas vezes. Coitado do Leandro!). Ou seja: a vida pessoal fica em segundo plano. Tentei explicar isso pra Pri, e rebati a pergunta dela com outra:
_Por que ter consultório, Pri? Por que você acha isso importante?
_Ora, porque é muito gratificante! Pensa bem: a paciente vai lá e paga uma consulta porque ela quer consultar você. Ela poderia ter escolhido outro profissional, mas ela te escolhe, porque confia em você. Eu tenho muito orgulho de ver minha agenda cheia, mesmo com outros médicos bons na cidade.
 Sempre me ensinaram a ser humilde, a fugir da vaidade. Acho horroroso a pessoa se achar o máximo e menosprezar os outros. Mas ter orgulho de alguma coisa boa, do que a gente faz bem-feito, é muito saudável e até necessário. A Pri é uma profissional excelente mesmo, e tem mais é que se orgulhar disso. A agenda cheia é uma espécie de termômetro do quanto ela é querida e requisitada.
Fiquei pensando nesse negócio de orgulho... Acho que se a gente listar as coisas de que tem mais orgulho, dá pra ter uma ideia de quem a gente é de verdade. No meu caso, percebi que as coisas de que mais me orgulho não têm a ver com minha vida profissional. Olha só:
Tenho orgulho do meu trabalho maluco de pintora de paredes, em parceria com a maluca da Marizote. Por causa dessa maluquice, a Mel e o Miguelito têm os quartos de criança mais fofos que eu conheço.
Tenho orgulho de ter tido a pouca vergonha de voltar pras aulas de piano, depois de velha. Me sinto o máximo andando por aí com um monte de partituras debaixo do braço, e nem me importo de levar umas broncas do professor de vez em quando. É muito engraçado, porque o meu professor tem pouco mais que a metade da minha idade, e as espinhas e o aparelho nos dentes o fazem parecer ainda mais novo, mas é exigente como ele só: “Que andamento é esse, sua doida? Bethoven deve estar se revirando no túmulo!” E: “Esse mi é bemol! Pelo amor de Deus!” E slapt, um tapa na minha mão. E muito bravo: “Faça o favor de cortar essas unhas! Elas estão escorregando nas teclas. Você acha que tem jeito de andar de skate de salto alto?” Mas a que mais me assustou foi: “Presta atenção na cifra e pára de olhar nota por nota! Mas é uma filha da pauta, mesmo!”
Tenho orgulho de ter diminuído drasticamente a produção de lixo aqui de casa, levando tudo que é  lixo seco pra reciclagem, mesmo que meu carro às vezes fique entulhado de caixas e sacolas, e fazendo adubo orgânico com os restos da cozinha. Tenho mais orgulho ainda de ter contagiado um pouco de gente com o meu radicalismo ambiental: é muito legal ver a minha sogra separando o lixo direitinho e perguntando: “Isso aqui é descartável?” (Ela confunde descartável e reciclável!) Ou então ver alguém gritando no meio da cavalgada: “Você jogou latinha no chão? Espera aí que vou contar pra Giselle.” E o acusado se desculpar correndo: “Não! Pode deixar que eu já vou catar!” Ou, durante um churrasco na beira do rio, a Regina pedir: “Gente, não joga papel no chão, não! A Giselle é seletiva! Olha aqui a sacola de lixo e a de recicláveis que ela organizou!” O que será que é ser seletiva? Não importa! O importante é não emporcalhar a natureza.
Tenho orgulho de saber que Kandinsky não é nome de perfume, Caravaggio não é modelo de carro, Botticelli não é marca de sapato, Ticiano não é o estilista do momento, Vermeer não é um aplicativo de iphone , Donatello não é só uma tartaruga ninja e Degas não é nome de boteco. 

Tenho orgulho do meu mini-clube do livro: o pessoal do ambulatório, de tanto me ver com livro pra lá e pra cá, começou a me pedir livro emprestado. Adoro ouvir a Natália, da recepção, reclamando: "Doutora, estou sem livro essa semana! Lembra de trazer um pra mim amanhã?" E o Keli, vigilante, que nessa brincadeira já leu desde novela policial até o clássico O sol é para todos, perguntar qual vai ser o próximo, porque ele já está terminando as Crônicas de Nárnia.
Tenho orgulho do meu casamento feliz. Orgulho de estar superando um monte de medos e preconceitos pra embarcar numa mudança de vida.
Mas se tem uma coisa que tem me dado muito orgulho mesmo, essa coisa são as couves. As couves, os brócolis, as acelgas. E as rúculas. Não podemos esquecer as rúculas! Calma, vou explicar. Já contei que quando vim à casinha verde pela primeira vez, encontrei um cercado meio tosco de lascas de aroeira centenárias, encimado por uma tela de arame toda torta sob o peso de um selvagem e ressecado pé de chuchu. Dentro do cercado, uma selva. Um monte de mato simplesmente impenetrável. Sério, se eu encontrasse lá dentro uma onça pintada ou o elo perdido, eu não ia achar estranho. Esse cercado era a horta.
Medi o perímetro do cercado, pra poder comprar uma tela nova. O tio João era o arquiteto-engenheiro-mestre-de-obras de plantão. Falei pra ele: “Tio, são doze metros de comprimento e cinco de largura.” Ele coçou a cabeça e falou, com o cigarro equilibrado no canto da boca: “Então... você pode comprar uns cinquenta metros.” “Mas... olha só: são doze mais cinco. Dezessete. Vezes dois: trinta e quatro. Não é isso?” Tio João coçou o queixo. O cigarro apagado milagrosamente equilibrado na boca: “Não, fia. Olha, compra quarenta e cinco.” Não lembro se eu tava de TPM nesse dia, mas pode ser que sim. “Tio João, pensa comigo: doze metros, mais cinco, mais doze, mais cinco: trinta e quatro!” Ele franze a testa. Coça o nariz. Pega um graveto, fica de cócoras e começa a rabiscar uma continha no chão. Jogo as mãos e a trena pro alto, em sinal de derrota. Acabei concordando em comprar quarenta metros de tela.
Todo mundo ajudou. O Rubinho capinou. Ele e o Luis Henrique formaram os canteiros. O Leandro, eu, a Marisa, e até as pequenas Ana Júlia e Ana Luíza plantamos as mudas. Marquinho, Neto e Jean ajudaram a esticar a tela nova. Luciene e Laila ajudam a regar todos os dias. Temos alecrim, coentro, manjericão italiano, salsinha e cebolinha, pimentas variadas, mostarda, almeirão, cenouras, tomate cereja, jiló e uma moita gigante de hortelã que o Leandro quer porque quer podar e eu não deixo porque acho linda e cheirosa demais. Pra adubar, usamos só esterco e compostagem. Nada de venenos ou agrotóxicos. Há alguns dias apareceu uma praga de pulgões nas couves e as lindas folhas de repente ficaram roídas e enroladas. O Leandro quase sucumbiu à tentação de usar um “defensivo”. Era isso ou arrancar as couves antes que a praga se espalhasse. Saí louca pesquisando uma alternativa na internet. E eis que surge a salvação: uma mistura de álcool, cascas de alho e cebola, água e sabão. E muita paciência pra esfregar folha por folha. Valeu a pena. As couves sobreviveram e estão lindíssimas. É ou não é de estourar de tanto orgulho?
Pintando o quarto de fundo do mar do Miguel

A horta depois da primeira capinada

Essa tela embolada parecia impossível de tirar


Começando o plantio


O resultado

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