segunda-feira, 8 de outubro de 2012

As alquimistas

Trouxemos do curral o leite recém ordenhado, quentinho e espumoso, em dois baldes grandes. Sônia estendeu um pano de prato limpo sobre o tacho. Inclinei um dos balde e o líquido branco, branquíssimo, escorreu borbulhante, coando-se pelo pano. Para cada cinco partes de leite, uma de açúcar. Sônia trouxe uma sacola grande a tiracolo, e dela vai tirando vários apetrechos: a colher de pau muito antiga, de cabo comprido, o potinho com bicarbonato de sódio, os potes grandes de vidro. Na sacola, bordada em pontos singelos, a sábia frase: “A coruja não fica de mal com o toco, porque ela não dorme no chão” ao lado de uma corujinha de retalhos de pano. Juntas, carregamos o tacho até o fogo. Mexo o leite com a colher bem reta, bem vertical, desenhando o símbolo do infinito no fundo da panela. Tem que ser assim pra não dispersar muito o calor, ela explica. Ciência de doceira experiente, mas com jeito de simpatia antiga de avó. O vapor sobe do leite quente e enrubesce nossos rostos. A fervura demora a acontecer, então conversamos, contamos causos, damos risadas, sem nos importarmos com o calor. Sônia, ao lado do fogo, apoiada num longo bastão de bambu, não tira os olhos do tacho. Uma entorse no joelho trouxe a necessidade da bengala, que ela usa com elegância de grande dama e que a deixa com ares de sacerdotisa. Subitamente, o leite ferve e a espuma sobe ferozmente, ameaçando transbordar. Sônia acha graça do meu susto. Agora a colher tem que subir e descer, horizontal, afundando no líquido furioso e diminuindo sua temperatura, controlando a tempestade. O leite ferve, ferve e ferve mais. E de repente muda de cor. Troca de cheiro. Transforma-se em substância pastosa e brilhante. Testamos o ponto colocando um pouquinho num copo de água fria. Somos cientistas experimentando um novo elemento. Somos alquimistas a ponto de provar a pedra filosofal. Depois de encher os potes de vidro com a milagrosa matéria, meus braços estão cansados, as pernas doloridas e o rosto suado, mas nada disso importa porque agora vem a melhor parte: raspar o tacho!
Acho inadmissível pensar em morar na roça e não saber nem sequer fazer um doce. Minha querida vizinha, que é doceira renomada na região, aceitou alegremente a missão de me ensinar. Por enquanto aprendi só o doce de leite e as maravilhosas amoras em calda (por cima de uma bola de sorvete de creme, são uma indecência, de tão boas). Teremos mais aulas, se Deus quiser e, além das receitas, espero que Sônia também me transmita um pouco da sua serenidade, da sua aura alegre e pacífica. Assim, mesmo com as encrencas e obstáculos que temos enfrentado, uma coisa é certa: dias mais doces virão.

4 comentários:

  1. Giselle, dias mais doces certamente virão!
    Achei um encantamento descobrir seu blog e seu texto tão fluente e gostoso. Terei que vir com mais tempo para espiar suas primeiras postagens e acompanhar sua saga na roça... ;)
    Estou com um sorteio no meu blog que pode interessar a vc... Por que não dá uma espiada lá?
    http://minasdemim.blogspot.com
    Beijo&Carinho,
    Jussara

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    1. Jussara, fui correndo olhar seu blog, que por sinal é fantástico. Lógico que entrei no sorteio.
      Receber elogios é sempre ótimo, mas ter meu texto elogiado por uma escritora como você... Ganhei o dia!
      Venha mesmo ver as outras postagens.
      Abraços,
      Giselle

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  2. ...traigo
    ecos
    de
    la
    tarde
    callada
    en
    la
    mano
    y
    una
    vela
    de
    mi
    corazón
    para
    invitarte
    y
    darte
    este
    alma
    que
    viene
    para
    compartir
    contigo
    tu
    bello
    blog
    con
    un
    ramillete
    de
    oro
    y
    claveles
    dentro...


    desde mis
    HORAS ROTAS
    Y AULA DE PAZ


    COMPARTIENDO ILUSION
    GISELLE

    CON saludos de la luna al
    reflejarse en el mar de la
    poesía...




    ESPERO SEAN DE VUESTRO AGRADO EL POST POETIZADO DE LEYENDAS DE PASIÓN, BAILANDO CON LOBOS, THE ARTIST, TITANIC SIÉNTEME DE CRIADAS Y SEÑORAS, FLOR DE PASCUA ENEMIGOS PUBLICOS HÁLITO DESAYUNO CON DIAMANTES TIFÓN PULP FICTION, ESTALLIDO MAMMA MIA,JEAN EYRE , TOQUE DE CANELA, STAR WARS,

    José
    Ramón...

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    1. José Ramón, seja bem vindo ao blog! Visitei o seus Horas Rotas e Aula de Paz, muito lindos. Abraços.

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