segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Chamando a chuva

Eu não prestava atenção nessas coisas. Nas sutis mudanças das nuvens, do vento. No cheiro do ar. Só me dava conta de que a estação das chuvas tinha chegado quando ela se anunciava espalhafatosamente, ribombando seus trovões e despejando suas bátegas. Mas tenho aprendido. O primeiro sinal foi a volta dos vagalumes. Já fazia um tempão que nenhum deles acendia sua lanterninha verde pra enfeitar a noite. Mas dia desses, no lusco-fusco da hora da Ave Maria, eis que lá pelas bandas da grota surge um tímido pisca-piscante pontinho de luz. Depois mais um. E mais outro. Aos poucos eles voltaram a povoar a escuridão do mato. “Vagalume tem tem, seu pai ta aqui, sua mãe também.” Conto para o Dudu que chamávamos os bichinhos assim, com um pote de vidro na mão, na esperança de fazer alguns prisioneiros e fabricar um lampião vivo. Mas o pequeno pede: “Não canta não, tia! Eu tenho medo de vagalume.” Então não canto. Um outro canto enche o ar. As cigarras também andavam sumidas. Mas agora acordam do seu sono, livram-se das armaduras velhas, que não servem mais, e surgem novas e reluzentes pra disputar suas barulhentas batalhas de canto. Dizem que cigarra canta até estourar. Dizem que é o canto da cigarra que "chama a chuva". Não sei. Sei que as tardes estão cheias da estridência alegre desses bichinhos.  
Sente-se o ar mais pesado, uma certa eletricidade. Nuvens prenhes cruzam preguiçosamente o céu. Mesmo assim não mudamos de ideia. O combinado era ir a cavalo pra casa do Franco. Então selamos os animais debaixo de um céu vespertino precocemente escurecido. Galopamos por pastos ressecados e estradas de terra poeirentas. A terra pede por chuva. Atravessamos o rio. A água baixou tanto que Frida e Madame nem precisam nadar pra nos acompanhar. Passam andando e dando pulinhos. Conversamos quase despreocupados, mas com um olho na montanha vermelha de nuvens zangadas que se forma atrás de nós. A umidade no ar é quase palpável. Atravessa as roupas e gruda na pele. Um rabisco de luz rasga o horizonte. Lembro da história do Luís Henrique, que teve a montaria fulminada por um raio durante uma tempestade. Sentiu o estrondo, o estalo de luz, e o cavalo desmontando entre suas pernas. Depois disso fez voto. Tempão sem cortar a barba. Casou barbudo, a Luciene conta. Aperto os calcanhares nos flancos do Silver . Vamos mais depressa um pouquinho? O vento nos envolve, pesado. A montanha de nuvens agora é negra, vinho, púrpura, riscada por relâmpagos, se eleva vertiginosamente no céu e nos cerca por trás, pela direita e pela esquerda. Escurece, e Silver tropeça na estrada de cascalho. Só falta um pouquinho pra chegar. Neto trota despreocupado em seu baio Sete-de-Ouros, contando piadas. Leandro tenta apressar a tropa, esporeia seu appaloosa.  Vemos que já chove nos campos à nossa esquerda, não muito longe. Marquinho dá um tapinha na garupa do castanho Café e o põe a galope. Na última reta tenho que ir devagarzinho. Escureceu muito, já não dá pra ver o chão. Aliviada, atravesso a porteira. Amarramos os cavalos embaixo do grande fícus do terreiro, sentindo os primeiros gordos pingos d’água que caem. Entramos na varanda e o céu desaba e se desmancha líquido sobre a terra, na primeira chuva da estação. Deus é bom.
Com as primeiras chuvas, a casinha verde se enche de novos habitantes noturnos. Delicadas aleluias e confusos besourinhos redondos revoam ao redor das lâmpadas. A pequena Sabrina, que está de visita, tenta montar um quebra-cabeça, mas é constantemente interrompida pelos bichinhos. Quando um imenso besouro preto pousa pesadamente sobre o brinquedo, ela berra: “Tia, olha! Um bicho grandão! Mata ele!” Delicadamente, capturo o pequeno rinoceronte negro e o liberto no gramado. “Sassá, eu não costumo matar os bichinhos. Eles não fazem nenhum mal pra gente.” Ela me olha intrigada. Olha para o chão, onde a cada instante caem novos insetos e, mãozinhas fincadas na cintura, pisa com toda a força em cima de um besourinho. “Pois eu costumo matar, Giselle.” E virando as palminhas das mãos pra cima, completa com ar professoral: “Porque eles me incomodam!” Fico apalermada por um instante. Como argumentar com esse serzinho de quatro anos e puro pragmatismo? Mas no instante seguinte a menina corre pra abraçar a Frida, já esquecida do quebra-cabeça e dos besouros. “Tira uma foto minha com a sua cachorrinha?” Isso eu posso fazer, Sabrina.

2 comentários:

  1. Olá que alegria te encontrar, adorei teu cantinho. Menina morro de medo de trovoada, tem muita historia, mas não fico num campo aberto em dia de trovões. Os antigos sabiam quando ia chover tem muitos sinais, nós vamos ter que observar a natureza e descobrirmos os sinais. Que linda essa menina é tua filha? Adoro morar no campo, mas aqui se trabalha muito, mas é compensador depois sentar e ver tudo limpo e lindo, hoje estava cortando grama e fazendo planos, vou fazer uma cerca viva, mas a seca ta terrível aqui, temos que aguar tudo todos os dias. Apareça sempre, será muito bem vinda.
    Tenha uma ótima semana.

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    1. Anajá, que bom receber sua visita aqui! Essa menininha linda é filha de uma prima minha, muito querida. No campo se trabalha muito mesmo, mas é um trabalho que faz bem, né? Cansa o corpo mas descansa a alma. Aqui graças a Deus a seca está se despedindo,as chuvinhas começaram, já estou planejando plantar umas mudas de árvore. Depois conta mais do projeto da cerca viva. Boa semana pra vc!

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