quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Seguindo o conselho de Lênin

Um passo atrás para dar dois à frente!

Quando a gente quer muito uma coisa, às vezes dá vontade de virar um trator, marcar um rumo e sair esmagando tudo que estiver na frente, pra chegar onde a gente quer. Mas o fato é que a estrada tem algumas curvas e desvios, e costuma ser mais sábio respeitar a sinalização, senão corre-se o risco de cair em alguma ribanceira, ou ficar atolado na lama.
Era domingo. Eu estava bem tranqüila lendo no meu quarto quando o Leandro chegou:
_Vou voltar a trabalhar no escritório.
Larguei o livro, meio assustada. Será que entendi direito?
_O quê? Como assim?
_Começo amanhã. Já falei com o Fabiano.
Senti um aperto frio no estômago, pensando em todos os planos que tínhamos feito.
_Mas... Por que isso agora? E o trabalho com os cavalos? Você ta pensando em desistir?
Ele me explicou que não. Não estava desistindo. Tinha pensado e repensado a nossa situação. Sem uma boa estrutura, redondel, pista, baias, ficava muito difícil trabalhar. Sem dinheiro e sem um pedaço de terra nosso, ficava difícil ter estrutura. Estávamos num beco sem saída. Com o salário do escritório, ficaria mais fácil planejar uma solução. E ele continuaria trabalhando com os cavalos no tempo livre.
Não achei a ideia muito boa. Na minha visão, era um retrocesso. Achava que tínhamos era que vender a casa logo, pra levantar o capital necessário, e tocar pra frente. Mas acabou sendo muito bom. O Leandro ia quase todos os dias pra roça, assim que saia do escritório, e voltava à noite. Acho que ele nunca ficou tão cansado na vida, nem na época em que fazia faculdade e tinha dois empregos. Mas estava bem, tranqüilo, e maquinando planos pra fazer dar certo o nosso projeto.
E no final das contas, vender a casa não era uma tarefa assim tão fácil. Já fazia um tempão que tínhamos anunciado e nada de aparecerem interessados. Mas um belo dia surgiu um! Que alegria! Vou dar-lhe o pseudônimo de Sr. Xixi, depois vocês vão entender porque. Sr. Xixi veio ver a casa. Gostou. Voltou com a esposa. Ela também gostou da localização, achou a casa bem espaçosa, ventilada, coisa e tal. Ficaram de pensar. No outro dia Xixi chamou o Leandro pra almoçar e fez uma oferta. Aleluia! O Leandro falou pra ele que ia conversar comigo e dava a resposta. Mas aí, no mesmo dia, volta o Xixi aqui em casa com um amigo. Eles olham a casa de novo, cutucam as paredes com os dedos, examinam rodapés, portais, o escambau a quatro. O tal amigo parece que é engenheiro. Falou pro Xixi que achava o preço meio alto pra uma casa já meio antiga. Pôs tudo quanto é defeito, criticou a divisão dos cômodos, achou sinais de umidade nas paredes, rachaduras no cimento do quintal, duendes malvados nos armários da cozinha, falou que a numerologia era desfavorável, que Marte não estava alinhado com Júpiter e aí não teve jeito. Nosso comprador fez xixi no barranco. Retirou a oferta. Fiquei simplesmente furiosa! Primeiro porque onde já se viu voltar atrás depois que se fez uma oferta de compra. Depois porque minha casa é linda, maravilhosa. Umidade é o nariz deles! O que tem são algumas paredes com pintura descascada porque o pintor fez um serviço mais ou menos e também porque o Hunter tem um probleminha básico de roer casca de parede. Eu e o Leandro ficamos tão bravos que arrancamos o cartaz de “vende-se” da porta, embolamos e jogamos fora.
E agora? Sem venda, sem dinheiro... O que fazer? Quase fundi o motor do cérebro, de tanto pensar. Minhas conversar com o Leandro eram cheias de elucubrações: “E se a gente em vez de vender, alugasse a casa e fosse morar de uma vez na casinha verde, do jeito que ela está?” “Mas a casinha verde não é nossa... E se a gente constrói toda a estrutura de baias lá e depois tem que mudar?” “É mesmo... E se a gente comprasse um pedaço bem pequeno de terra, mais barato? Agora com o seu salário do escritório, e economizando bastante, quem sabe dá certo?” “Mas onde achar esse pedaço?” Numa dessas conversas nos lembramos da terra do Rubinho, aquela que tinha uma casinha azul pequenininha. “E se a gente fizesse uma oferta na terra do Rubinho?” “Pode ser! Lá é bem pequeno. Mas tem água... Tem a casinha... É perto da casinha verde... Vamos lá conversar com ele?”
Fomos. O Rubinho mora com a esposa numa chácara muito bonita, com um jardim meio bagunçado, bem rústico, do jeito que eu gosto, fogãozinho a lenha no terreiro, e uma varanda grande e fresquinha. A terra que ele estava vendendo é perto dessa chácara onde eles moram. Nos sentamos na varanda, tomando café. A cachorrinha Mila veio fazer festa pra mim e pedir cafuné. Conversa vai, conversa vem, o Leandro tocou no assunto da venda da terra. Rubinho falou que o preço ainda era o mesmo. Aí o Leandro dispara: “Se eu te pagar tanto essa semana, você me dá um prazo de dois meses pra acertar o restante?” Tive três extra-sístoles, engasguei com o café e involuntariamente espremi a cabeça da Mila, que saiu ganindo. “Tanto” era mais ou menos vinte por cento do valor da terra. E isso era tudo o que tínhamos de economias. Minha vontade era falar pra ele: “Ficou doido??? De onde a gente vai tirar o resto do dinheiro? Você pretende ganhar na loteria, assaltar um banco ou vender um rim no mercado negro nesse prazo de dois meses? Pensei que a gente tivesse vindo só pra conversar!” Mas uma regra importante do nosso relacionamento (nunca chame o marido de doido ou o acuse de planejar assaltos em público) e o engasgo com o café me impediram de falar. Dei só um beliscão disfarçado, bem fininho nele, enquanto tentava sorrir com naturalidade. Mas aí, para meu desespero, o Rubinho me aceita a oferta. Um aperto de mãos e pronto: estamos oficialmente e irremediavelmente endividados.
No carro, voltando pra casa, fiquei um tempão em silêncio, ainda em estado de choque. Aí criei coragem e perguntei: “E então, qual é o plano?” E ele me respondeu com uma frase que eu ouviria muitas vezes nos dois meses seguintes: “Calma, está tudo sob controle.”
Eis um resumo do que se passou no período de contagem regressiva que se seguiu, no qual adquiri uma gastrite nervosa, um estranho tique de piscar sem parar o olho direito sempre que ouvia a palavra dinheiro, e calos nos joelhos de tanto orar por uma solução milagrosa.
Faltando um mês e vinte dias: tentamos um financiamento no banco. Leandro fala: “Calma! Tudo sob controle!”
Faltando um mês e dez dias: os juros do financiamento são muito altos. Não vai dar. Pedimos um empréstimo pro meu sogro. Começo a pensar mais seriamente na história da venda do rim. Será que a gente acha comprador na internet?
Faltando um mês: Meu sogro empresta uma parte. Maravilha! Mas ainda falta muito. “E agora amor? O tempo ta passando!” “Calma! Já te falei. Sob controle.”
Faltando vinte dias: Peço empréstimo pro meu pai. Ele me chama de “cabeça leve” de novo. Faz um discurso sobre estratégia em finanças. Faz um discurso sobre a atual política agropecuária, social e fundiária. Faz um discurso sobre... não sei. (Nessa hora eu já não tava prestando atenção. Tava pensando em esganar o Leandro.) No final, não empresta nada. Chego em casa e conto pro Leandro. Ele: “Calma. Tá tud...” Pulo no pescoço dele: “EU VOU TE MATAR!” Mas não mato.
Faltando dez dias: Peço empréstimo pra Raquel. Há esperança.

Faltando nove dias: Raquel acabou de comprar um terreno. Não tem dinheiro. A ideia do assalto a banco começa a parecer atraente.
Faltando uma semana: Tentamos financiamento em outro banco. Aparece um anjo em nossas vidas que aceita usarmos sua casa como garantia. Existe isso? Raríssimo, mas existe. É a solução milagrosa que eu estava pedindo! Deus é bom! O financiamento dá certo. Abraço e beijo o Leandro, arrependida da tentativa de esganação.
Faltando um dia: O dinheiro está na conta do Rubinho! Leandro alfineta: “Eu te falei que tava sob controle.” Mas confessa que também passou apurado.
É a glória! Temos nossa terrinha! É um pedacinho pequeno, mas tem tudo que eu queria: água corrente, área de reserva, e não é longe das casas dos nossos amigos rurais. E a parcela do financiamento coube no orçamento (apertado, mas coube) por causa da volta do Leandro pro escritório, que a princípio eu não queria. E agora? Agora toca a resolver problema: é instalação de eletricidade pra arrumar, é cerca pra fazer, é capim pra plantar, é cisterna pra furar... É muita coisa! Espero que vocês me acompanhem nessa empreitada.  E não se preocupem, porque afinal de contas, está tudo sob controle!




4 comentários:

  1. é nenem, graças a Deus está tudo sob controle... já adiantando, a energia já foi aprovada e em pouco tempo (tomara) estará instalada, a cerca já está em andamento, a terra pronta para o plantio das sementes que já compramos e a cisterna nós já temos que irá furar.
    Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.
    Beijo :*

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    1. É isso aí, lindinho! E o melhor de tudo é que estamos juntos nesse projeto. Você é o melhor marido roceiro do mundo.

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  2. Uau!! Todo esforço não foi em vão e preparem-se, a labuta na terra é imensa. Terão dias de sol e dias de chuva. Rezarão por tempo bom para que a terra frutifique... Quem vive em contato com a natureza, vive mais perto de Deus. Boa sorte!!

    Ah, obrigada por divulgar o bookcrossing blogueiro!!

    Boa semana!! Beijus,

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    1. Oi Luma. Bom te ver por aqui! É verdade, a labuta é grande e às vezes a chuva que esperamos demora a vir, mas estou confiante que os frutos virão. Em novembro, também semearemos livros, no Bookcrossing blogueiro, e espero que a colheita de experiências seja muito boa! Beijo

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