segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Um caso de amor

No dia em que quase desisti de aprender a andar a cavalo, conheci a Morena, uma égua castanha com sangue de Mangalarga Marchador. Até hoje não sei explicar por que comecei a gostar dela. Morena é arisca. Meio sistemática, digamos. Não gosta muito de dengos e carinhos e no dia em que não está com a “veia boa”, não tem quem a pegue no pasto. Não gosta de andar devagar, “no passo”. Adora galopes e corridas. Iniciante no mundo dos cavalos, era pra eu ter preferido um bicho tranquilo, calminho, mansinho... Mas me apaixonei por ela. Devagar, fomos ganhando a confiança uma da outra.
Com ela aprendi algumas coisas interessantes sobre cavalos. Aprendi que por trás daquelas centenas de quilos, daquela musculatura poderosa, daquela força impressionante, se esconde um espírito doce e tímido.  O cavalo é uma presa por natureza, sempre atento a possíveis predadores, sempre meio na defensiva. Você pode falar rispidamente com seu cachorrinho, e momentos depois ele estará pulando e abanando o rabo, feliz em te ver e ansioso por te agradar. Mas se usar o tom de voz errado com um cavalo, ele vai tentar se afastar, fugir de você. Por isso é que foi tão emocionante ir me aproximando da Morena. No começo, eu conversava com ela e ela me olhava intrigada, meio de longe, decerto pensando: “O que será que ela quer comigo?”. Aos poucos foi deixando eu me aproximar. Hoje quando dou banho nela, levantando cada pata pra lavar os cascos, e ela se submete docilmente, confiante, não me aguento de alegria. Quando a chamo no pasto e ela vem de longe pra comer uma cenoura na minha mão, então...

Com ela comecei a aprender as sutilezas da interação entre gente e cavalo. Nas primeiras vezes em que montei, ficava com um pouco de medo por causa da sensação de falta de controle que dá. Afinal, é um bicho muito grande, muito forte que está ali... Como é que eu vou conseguir dominar um bicho desses? Mas fui vendo que o que existe entre o cavalo e um bom cavaleiro é uma parceria, uma constante comunicação. O cavaleiro não precisa exercer domínio, mas sim uma gentil liderança. A Morena foi me ensinando isso. Uma leve pressão com as minhas pernas e ela saia no trote. Uma inclinação do meu corpo pra frente, e vinha o galope. Um som de incentivo, e era a corrida. Um toque do calcanhar, uma inclinação das rédeas, e a direção muda. Uma palavra e um movimento de rédeas, e a velocidade diminui. Ela é toda atenção. Mas não gosta de indecisão: se eu hesito um pouco (será que desvio ou pulo esse barranco?), se não passo segurança pra ela nos comandos, ela bufa impaciente e toma as próprias decisões, que nem sempre me deixam feliz.  

Ela também tem seu jeito de se comunicar. Toda uma delicada linguagem corporal. Cabeça baixa, movimento de mastigar, significam tranquilidade. Orelhas abaixadas pra trás, encrenca à vista. E uma porção de relinchos e sopros diferentes, pra chamar ou advertir os outros cavalos, pra mostrar que está feliz com a chegada da ração...

A Morena era do Roger que, generosamente, sempre me emprestava quando eu pedia. Eu morria de vontade de comprar pra mim, mas dinheiro que é bom, não tinha. Num belo dia, chego lá nas baias e encontro o Roger mostrando a Morena pra um possível comprador: um menino de uns quatorze anos, acompanhado do pai. Fiquei meio de longe, fingindo que estava ocupada com outras coisas, mas observando e torcendo pro negócio não dar certo. O Roger selou a Morena e montou. Foi mostrando que ela sabia recuar, ladear...  galopou, ensaiou um esbarro. O menino, chapeuzinho de cowboy na cabeça, botina no pé, todo cheio de pose, olhava: “Que legal...” Aí o Roger me viu lá num canto, apeou e me chamou: “Giselle, monta aqui na Morena e dá uma volta pra eles verem.” Fui com as pernas meio bambas, pensando: “Que raiva! Ainda por cima quer que eu participe dessa venda?” Montei e dei umas voltas, primeiro no trote, depois galopando um pouco. Apeei, fiz um carinho no pescoço dela: "Muito bem, boa menina..." como sempre faço e me afastei sem olhar pra trás, pra não ficar mais triste ainda. Não sei se foi porque fiz uma cara muito feia (eu tentei!) ou se realmente o menino não gostou da Morena (ele ficou olhando de rabo de olho pro Raio que, muito branco, grandão e amigável, mastigava feno em sua baia), mas uns dias depois fiquei sabendo que eles não fecharam negócio. Mesmo assim fiquei com o coração apertado, pensando na possibilidade de alguém levar embora a minha querida.
Uns dias depois, o Leandro chegou em casa com um sorriso de orelha a orelha: “Comprei a Morena pra você!” Fiquei pasma: “Mas com que dinheiro, meu Deus do céu?” Aí ele me contou que o Roger fez um preço bem camarada. Um tempo atrás, eu tinha pedido um empréstimo pra Raquel e ela me deu o cheque dizendo: “Não é empréstimo. É presente.” Mas eu queria devolver e estava juntando. “A Raquel não ia mesmo aceitar você devolver aquele dinheiro...” Eu não sabia se comemorava ou se matava ele.
Mais tarde, eu e a Raquel escolhíamos legumes no varejão quando contei: “Sabe aquele cheque? Eu ia te devolver este mês, mas apareceu uma oportunidade, e aí eu comprei uma coisa pra mim...” E ela, distraída examinando um reluzente pimentão vermelho: “Ah, eu te falei que era presente, tenha dó! Mas o que você comprou?” “Uma égua!” O pimentão caiu de volta na bancada: “Pelo amor de Deus! Pensei que tinha comprado uma coisa legal! O que você vai fazer com uma égua???”
O que eu ia fazer? Desbravar trilhas, percorrer estradas, atravessar rios, correr, correr e correr até só ouvir o vento assobiando forte nos meus ouvidos... O que eu ia fazer? Cair no chão e levantar de novo! Deixar as preocupações pra trás, na poeira da estrada. Subir barrancos, descer ladeiras, carregar a cachorrinha Frida na sela comigo. O que eu ia fazer? Me emocionar com o nascimento da potrinha Penélope. Mas nesse dia eu ainda não sabia disso. Então não falei nada pra Raquel, que também não deu muita importância ao assunto e, de testa franzida, já estudava atentamente uma batata-aipo.
Mais de um ano já se passou. Morena já aprontou muito, já me fez chorar de susto e de raiva. Nos primeiros tempos, quando ficava na baia, ela saía louca pra andar e correr, e eu, medrosa, me apavorava. E nunca esqueço uma mordida que ela me deu nas costelas, um dia em que o Leandro estava ajustando a barrigueira dela (mas coitadinha, ela estava grávida e sensível). Mas um dia desses, em que eu estava triste, nervosa não lembro com o quê, fui levar a Morena de volta pro piquete. Tirei o cabresto e já fui me virando pra voltar. Normalmente ela já sai desembestada pra pastar. Dei uns passos na direção do colchete quando senti a respiração quente dela no meu ombro. Ela vinha me seguindo de volta. Ficou paradinha na cerca, me olhando, e aceitou um afago na cabeça, coisa rara de acontecer. Como explicar? Só deixei as lágrimas caírem.
Morena e a pequena Penélope, no dia do seu nascimento

Que bebê guloso!


Com dois meses e meio, muito dengosa, comendo ração na minha mão.

A mamãe Morena também quer uma raçãozinha!
Suave e dócil. Minha Penélope.
Morena e eu perseguindo o arco-íris. O que será que nos espera?

6 comentários:

  1. Nenem, fico feliz em fazer parte dessa história. Se Deus permitir ainda teremos muitas histórias pra contar da morena e cia ltda.
    Beijo

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    1. Amor, essa história só existe por sua causa. Você é minha maior alegria. Te amo!

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  2. Que delícia poder sair por aí cavalgando!!
    Dizem que é o animal que nos escolhe :) De arrisca agora ela come na sua mão!!
    Espero que o natal de vocês tenha sido bom, cheio de alegria e afetividade!!
    Que o espírito do natal permaneça em seu lar!!
    Beijus,

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    1. Luma, tivemos um Natal muito bom, graças a Deus, mas de muito trabalho: passamos o dia instalando o encanamento da cisterna, uma luta, debaixo de sol quente! mas valeu a pena, depois vou postar essa historia. Desejo muita alegria, paz e saúde e pra você em 2013, que seja um ano pleno de felicidade e projetos realizados! Bjo!

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  3. Me emocionei com a sua história...parece com aqueles filmes de sessão da tarde, de cavalos, que eu sempre choro...falando sério, chorei.Ainda bem que você ficou com ela.Estou te acompanhando por aqui. bjs

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  4. Iraci, que bom que está acompanhando o blog, fico muito feliz mesmo. Só assim pra gente conversar, porque nessa correria, faz um tempão que não nos encontramos. Assim que a casinha da roça estiver em melhores condiçoes, vamos marcar um almoço lá.Vou te apresentar os cavalos todos. Quem sabe vc também não se apaixona?

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