quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Tá nervoso? Vai furar cisterna!

Faz um tempinho, acho que há uns dois anos, eu estava indo embora de um culto na igreja Sal da Terra, quando uma moça veio correndo atrás de mim. Ela segurou meu braço, olhou bem nos meus olhos e falou: "Deus mandou eu te falar uma coisa." Presbiteriana de berço, sempre tive um pé atrás com esse negócio pentecostal de visões e profecias. Já fiquei meio assim... Mas ela continuou: "Ele falou que é pra você e o Leandro não se preocuparem. O que Deus tem preparado pra vocês é muito bom. Vai ser difícil, sofrido durante o processo, mas vai passar. Espere que a vitória virá." Sorri e agradeci, e fiquei pensando naquilo. Na época, minha vida estava tão tranquila... Pensei: "Acho que ela deu o recado pra pessoa errada. Eu estou muito bem. Não estou sofrendo, nem passando dificuldade."

Aí o tempo passou... E aqui estou eu, aqui estamos nós. Passando um aperto financeiro como nunca antes na história desse casal. Trabalhando nas horas em que devíamos descansar, mais até do que durante a jornada normal de trabalho. Andando de fusquinha velho. Travando a coluna de carregar cimento. Planejando, sonhando, perdendo o sono de tanto pensar, de tanto projetar... Como Deus é bom! Ele é tão misericordioso, que antes de começar a luta, já me avisou do resultado. Já me tranquilizou. Mas a gente é boba, a fé é fraquinha... às vezes dá medo, dá um desespero... Mas aí lembro daquela irmãzinha da Sal da Terra. Se Deus se deu ao trabalho de até me mandar recado, Ele não vai me deixar na mão.

E durante o processo a gente vai aprendendo um pouco. Vai aprendendo, por exemplo, a valorizar coisas que parecem pequenas, mas que são tão importantes, como a água na torneira... Na nossa terrinha tem uma cisterna. Só que essa cisterna foi furada na época das chuvas. Ou seja: furaram só um pouquinho e já acharam água. Aí pararam de furar. Quando chegou a seca, a cisterna, muito rasa, secou. Resultado: não tínhamos água na casinha azul. O que fazer???? Achar alguns malucos bem fortes, bem animados, bem sem noção, bem sem nada pra fazer no sábado, e colocá-los pra furar a cisterna!




Então lá fomos nós! Eu, o Leandro, o Neto, a Marizote, o Déo e o Danilo (filho do Déo e também conhecido pelos codinomes "Fogo no Furico", "Fuego en el Agujero" ou "Fire in the little hole". O moleque não fica quieto um segundo.) Bom, eu, a Marizote e o Furico ficamos mais no apoio moral, na documentação fotográfica e no fornecimento de água e refrigerante. Agora, pro lado do Leandro, do Neto e do Déo o bicho pegou.




A parada é a seguinte: Déo desceu por uma escada até o fundo da cisterna. Como já tinha chovido um pouco, tinha água lá dentro. Toca então a tirar a água. Ele ia enchendo uma lata, e o Leandro e o Neto puxavam a lata por um sistema de corda e roldana. Lembro vagamente de ter estudado esse negócio de roldana no ensino médio (Física... Isso existiu mesmo na minha vida?) Agora, de ter puxado algumas latas d'água por aquela cisterna acima, disso vou lembrar toda a vida! Que peso!


Sai da frente, que lá vem lama!


"Tá tudo bem aí embaixo, Déo? Foi sem querer que quase derrubamos a lata na sua cabeça, tá?"
Los fuertes! Essa palhaçadinha deles é porque ainda não tinham começado a subir as latas de terra.
Quando acabou a água lá embaixo, aí é que a coisa ficou feia. Déo ia cavando o barro com pá e enxadão. Enchia a lata de barro e terra, e os meninos cá em cima puxavam. Haja braço! Era cada "tolete" de barro dentro daquela lata, que vou te contar.


Força, amor! Você consegue!


O buraco ia ficando mais fundo e aí eles iam empurrando pra baixo esses anéis de cimento: as manilhas, e colocando outras por cima. Parecia que não ia parar mais de sair barro de lá. Então, vimos a água começar a brotar de novo lá embaixo: chegamos à mina! Toca então a tirar mais água, a tirar mais barro, a acertar o fundo, a tirar as sujeiras, a ajeitar as manilhas... O Neto foi ficando nervoso e começou a marcar no chão uns risquinhos, contando as latas que subiam. Diz ele que quando inteirassem vinte latas ele ia parar e não queria nem saber, que não aguentava mais! "Quinze!" ele gritava "Só mais cinco, meu povo! Não tem jeito não... Isso não é serviço de gente não!" E o Leandro gritando: "Ô barro preguento! Buraco fedorento!" Mas subiram vinte latas e algumas mais. Até o Déo chamar: "Manda a escada aí, gente! Tira eu daqui!" A cisterna estava pronta! Mas ficou faltando uma coisinha: o encanamento pra levar água até a casinha, que fica a uns trezentos metros de distância. Mas isso eu conto no próximo post, que só de lembrar já estou cansada!  Até mais!

Ô, minha raposinha do mato, ficou sujinha, ficou? Vai ter que tomar banho com xampu de cavalo antes de voltar pra casa.

Fala tchau pro pessoal, Frida!
Mas não posso terminar o post sem deixar esse recado:
Na vida encontramos muitas pessoas que chamamos de amigos. Mas o que é um amigo? Alguém que tem interesses em comum com você, que caminha ao seu lado, que ri com você, alguém com quem você sai, se diverte, compartilha as coisas boas da vida? Pode ser tudo isso. Mas eu acho que é mais que isso. Eu tenho a felicidade de ter alguns amigos. Não são muuuuuuitos, não. Mas são amigos de verdade. Tenho a felicidade de ter encontrado na vida pessoas que topam sair de casa no fim de semana do Natal, pra furar uma cisterna, pra carregar lata de terra o dia inteiro. E fazem isso rindo, fazendo piada... Podem ter certeza, amigos, que disso eu nunca vou me esquecer. Ter água na torneira é muito bom, mas ter a amizade de vocês é simplesmente incrível. Vocês fazem valer a pena, e estarão sempre no meu coração.    


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