sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Coisa de criança



          Às vezes me pergunto o que é que faz delas criaturinhas tão encantadoras. Elas podem nem sempre ser doces. Podem ser teimosas, às vezes intratáveis e até um pouco malvadas de vez em quando. Mas são as coisinhas mais divertidas do mundo. Então no post de hoje vou fazer uma listinha: o que mais amo nas crianças.

          Elas são curiosas, e não se deixam enganar facilmente:

          Outro dia convidei o Dudu, meu sobrinho de cinco anos pra ir na roça conhecer o novo filhote da Morena, o Dante. Ele ficou todo empolgado: “Nossa... Um filhotinho! Que legal!” Mas logo fez uma cara intrigada: “Mas tia... Como é que eles botam ovos tão grandes?” Dei risada e tentei explicar: “Não, Du! Égua não bota ovo! Cavalos são mamíferos, lembra? O filhote nasce da barriga da mãe.” E ele: “Então por onde é que ele sai?” Olhei de relance pra Vanessa, mãe do pequeno, tentando uma comunicação rápida pra saber até que ponto eu podia dar os detalhes. Ela emendou: “A tia Giselle corta a barriga da mãe e tira o filhotinho!” Dudu cruzou os braços e disparou: “Mãe, ela é médica, e não veterinária!” “Então, Dudu, você vai querer suco de morango ou de laranja?” Ele não tem jeito!

Olha aí o Dudu! Calçou minha galocha por cima da botina dele e ficou com o pé preso! Quem pode com ele?

          Crianças não são escravas da culpa:

          Minha sobrinha Melissinha é o melhor exemplo. Dois aninhos de pura fofura. Estava ela brincando de empilhar as peças de um dominó. O Miguel, seu irmãozinho de 9 meses, queria pegar uma pecinha: “Dá, dá, dá!” e estendia as mãozinhas. “Dá uma pra ele brincar, Melissa. Você tem um montão” a vó Mariana pediu. Melissa não interrompeu a brincadeira e nem ergueu os olhos. Soltou, na maior naturalidade: “Não. Deixa ele ficá bem ‘tiste’.” A gente não sabe se fica brava ou se cai na gargalhada.

          Falando em “tisteza”, a Memel pegou agora uma mania de ficar perguntando o dia inteiro pra mãe dela: “Mamãe, você tá tiste?” Dia desses, a Rosana já tinha respondido umas quinze vezes que não tava triste não, e na décima sexta vez, respondeu trincando os dentes: “Não, não to triste ainda, mas vou acabar ficando, de tanto você perguntar!” Minutos depois: “Mamãe, você tá tiste?” Ro respirou fundo e respondeu: “Não. Eu to feliz porque tenho dois bebês lindos, a Melissa e o Miguel, que são os meus filhinhos.” A resposta: “Pois vai ficar sem filhinhos!” A Ro quase caiu das pernas: “O quê??? Ficou doida, menina? Por que é que eu vou ficar sem filhinhos?” Com a cara mais sapeca do mundo: “Por que Melissa e ‘Midel’ vai fugir pra rua!” É lógico que depois disso a porta da casa nunca mais ficou destrancada!


Tão talentosa!

          Elas sabem que, na dúvida, é melhor pedir perdão do que permissão:
    
          Dia desses, Rosana se arrumando, na maior correria, pra ir trabalhar, e a Memel chega na porta do banheiro, com uma canetinha na mão, e pergunta, com toda a doçura do mundo: “Mamãe, pode?” “Pode o quê?” “’Abiscá’ as pessoas?” A Ro quase engasgou com a pasta de dente, de susto: “Por que que você ta perguntando isso?” E a Mel, na maior inocência, dando de ombros: “’Abiscô o Midel!” Rosana largou tudo e correu pra sala, onde encontrou o Miguel, muito sorridente, com o rostinho tooooodo riscado de canetinha.


Essa Melissinha não tem jeito, não!

          Crianças fazem planos mirabolantes e não se preocupam com os obstáculos:

          A mãe do Neto, Maria, quando era pequenininha, todos os dias ia com sua irmãzinha levar a marmita pro pai delas, na roça. No caminho, um dia acharam um ninho de corujas. Pra quem não sabe, as corujas geralmente fazem seus ninhos em buracos no chão. As meninas ficaram encantadas com a possibilidade de pegar um filhotinho de coruja pra elas. No dia seguinte levaram um enxadão. Começaram a cavar. A mãe coruja se desesperou, vendo aquela agressão ao ninho, e começou a piar e voar em círculos. Assim que conseguiram cavar o suficiente pra ver os bebês corujas aninhadinhos lá no fundo, começou a briga. “Eu é que vou pegar o primeiro filhotinho!” “Não, eu é que vou escolher primeiro!” Maria era a mais velha e acabou conseguindo o direito de escolha. Enfiou a mão no túnel e... “Ai, ai, ai!” A corujinha trincou o bico no dedo dela e veio grudada. Em pânico, Maria corria e sacudia a mão, chorando de dor. E a corujinha não desgrudava. E como tudo que está ruim ainda pode piorar, a mãe coruja começou a dar rasantes e “tuc” bicava na cabeça da menina. Subia e voltava: “tuc” de novo na cabeça dela. Morro de rir só de imaginar a cena! Coitadinha!

          Quando elas são malvadas, aí é que são mais engraçadas:

          Mais uma da Melissa. Minha mãe com o Miguel no colo. Miguel chorando sem parar. Minha mãe andando de um lado pro outro, embalando o menino: “Não sei mais o que fazer com o Miguel...” E a Melissa, lá do seu cantinho de brinquedos, sugeriu: “Anca.” “O que, Melissa???” “’Anca’! ‘Anca’ o ‘pecoço’ dele!”


Miguelito! Que bagunça!
          Crianças sabem o que querem:

          Meu primo Douglas, quando criança, diante da clássica pergunta “o que você quer ser quando crescer” soltava invariavelmente um certeiro: “Ou polícia ou bandido.” Graças a Deus hoje ele é policial.

          Esse menino era particularmente terrível. Vou até me abster de contar um episódio em que ele colocou fogo no sofá com o irmão mais novo dele em cima (ninguém se feriu porque acudiram a tempo). Mas teve um dia em que ele quase fez uma tia cega ter um infarto. O menino pega um copo d’água na cozinha e vem bebendo. A tia escutou o barulhinho. “Meu filho, o que você tá bebendo?” E ele, certeiro: “Veneno.” A tia aprontou o maior berreiro: “Acode, gente! O Douglas aqui! Tá tomando veneno!” Naquela época não era politicamente incorreto dar umas palmadas em menino custoso, para tristeza dele.

          Mas aquilo que mais amo nas crianças, Jostein Gaarder (aquele, de O Mundo de Sofia e O Dia do Curinga) descreveu muitíssimo bem:

         “Ao que tudo indica, ao longo da nossa infância nós perdemos a capacidade de nos admirarmos com as coisas do mundo. Mas com isto perdemos uma coisa essencial – algo de que os filósofos querem nos lembrar. Pois em algum lugar dentro de nós, alguma coisa nos diz que a vida é um grande enigma. (...) Para as crianças, o mundo - e tudo o que há nele - é uma coisa nova; algo que desperta a admiração. Nem todos os adultos vêem a coisa dessa forma. A maioria deles vivencia o mundo como uma coisa absolutamente normal. E precisamente neste ponto os filósofos constituem uma louvável exceção. Um filósofo nunca é capaz de se habituar completamente com este mundo. Para ele ou para ela o mundo continua a ter algo de incompreensível, algo até enigmático, de secreto. Os filósofos e as crianças têm, portanto, uma importante característica comum. Podemos dizer que um filósofo permanece a vida toda tão receptivo e sensível às coisas quanto um bebê."

          Então, feliz Dia das Crianças! Para todos nós que vivemos infantilmente maravilhados com este mundo extraordinário.

Bibi, Dudu e meu maridão


Concurso de caretas!!!!


Um comentário:

  1. Giselle, diverti-me muito com as histórias! Adorei a lembrança do trecho de Jostein Gaarder que me fez lembrar de uns versos do Alberto Caeiro, heterônimo de Fernandoo Pessoa: "Sei ter o pasmo essencial que teria uma criança se ao nascer percebesse que nascera deveras". Muitas vezes eu nãi sei, mas eu tento.
    Abraço!

    ResponderExcluir