segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Mãos de trabalhador

Segurei o espelho com mãos levemente trêmulas. Comecei a aproximá-lo do rosto, mas desisti e o abaixei novamente. Por entre lágrimas, lancei um olhar desamparado para o meu marido. “É um corte muito pequeno, meu bem...” ele me encorajou. “Você se assustou porque sangrou muito, mas agora que está limpo dá pra ver que é bem pequenininho.” Suspirei desanimada. Uma cicatriz no rosto... Que pesadelo pra qualquer mulher com um mínimo de vaidade. “Isso é bom pra você aprender a não tentar morder os pés dos cavalos. Tá pensando que é um Border Collie?” disparou o Neto, que perde o amigo, o emprego, a classe, se for preciso, mas não perde a piada. Rindo um riso dolorido, criei coragem e ergui o espelho. Meu queixo parecia absurdamente inchado e uma equimose começava a se formar, mas o ferimento em si era mesmo pequeno: um corte com pouco mais de um centímetro, logo acima da borda inferior da mandíbula. “É melhor você me levar pro hospital.” Falei pro Leandro. “Acho que vou precisar de uns dois ou três pontos...” Passei a língua pelas bordas cortantes dos molares quebrados. “E na segunda-feira eu vou ao dentista.” Era um sábado.

No caminho pro hospital, com a caminhonete sacolejando pela estradinha de terra, enquanto pressionava uma compressa de gelo contra o queixo e enxugava o sangue que teimava em escorrer, os fatos daquela manhã esquisita foram se reprisando na minha mente. Uma manhã de sábado que começou como outra qualquer. O Leandro e eu acordamos cedo e arrumamos as coisas pra ir pra roça. Foi só abrir a porta da caminhonete pra colocar umas sacolas que a Frida já saltou pra dentro, assumindo seu lugar de costume, toda feliz. O Hunter ficou de longe, me olhando com aqueles olhões tristes. “E se a gente levasse o Hunter hoje, pra passear lá? Ele ia ficar tão satisfeito com todo aquele espaço...” Pronto. Primeira decisão equivocada do dia. Lá fomos nós com uma Border Collie dormindo no chão da cabine e um American Staff em estado de euforia aguda na carroceria. As atividades na roça são inúmeras e tivemos apenas alguns minutos pra rir da felicidade do Hunter, que corria de um lado pra outro, explorando aquele ambiente novo e sem limites. Logo que o Neto chegou, ele e o Leandro pegaram o carro e foram para a pista, verificar a cerca que estava começando a ser feita. Eu fiquei na casinha azul e fui tratar dos cavalos (segunda decisão equivocada). Normalmente eles comem ração duas vezes por dia, pra complementar a pastagem. Durante a seca, também recebem feno e silo de milho. Uma coisa que a gente gosta é ver os bichos comendo bem, com o pelo bonito, bem nutridos. Enchi um balde com ração e peguei um baldinho menor pra despejar as medidas de cada um. Os cavalos ficam distribuídos em piquetes, em grupos de três ou quatro, conforme a “afinidade” deles (entenda-se: os mais briguentos não podem ficar juntos). É engraçado como eles estabelecem uma hierarquia: tem sempre um chefe na turma, um que escolhe primeiro o cocho em que quer comer, e ai de quem quiser discutir... No piquete mais próximo, logo abaixo da casa, estavam o Lord, um Quarto de Milha castanho, lindo de doer, que pertence ao Neto; o Barão, um baio imenso, gigante mesmo, também Quarto de Milha, do Jean, e um Manga Larga Marchador tordilho: o Ídolo, que é do Fabiano. Passei pelo colchete, com meu balde de ração, e despejei o primeiro bocado no cocho mais próximo. O Ídolo veio todo imponente, cheirar a comida. Eu já ia me afastando, rumo ao próximo cocho, quando vi o Hunter, naquele jeito desajeitado dele, se aproximar do Ídolo. O tordilho provavelmente nunca tinha visto um cachorro tão estranho: um bicho todo fortinho, musculoso igual a um desses mocinhos “marombeiros” de academia, com orelhas pontudas apontadas pra cima e um focinho curto que, junto com o excesso de exercício do dia, resultou numa respiração que soava mais como um grunhido de porco. Vi que o Ídolo resfolegou meio assustado com a aproximação daquela esquisitice canina e tratei de sair de perto, pra evitar encrenca. Mas a encrenca foi mais rápida do que eu. Ouvi um zunido suave. Um movimento diferente do ar. Então o impacto. Uma dor aguda. E caí pro lado, deixando cair longe o balde com ração e tudo. Demorei uns segundos pra entender que tinha sido um coice. Levei a mão ao queixo, que latejava, e ela se encheu de sangue. Senti uns fragmentos estranhos na boca e cuspi: pedaços de dentes. Gritei pelo Leandro, mas ninguém respondeu. Lembrei que ele estava muito longe. Aí me permiti entrar em pânico e comecei a chorar. Mas só chorei um pouquinho porque vi que não ia adiantar nada. O jeito era ir andando até onde o Leandro e o Neto estavam. Então foi o que fiz. O Neto conta que de repente viu alguém se aproximando ao longe na estrada. Ainda não dava pra ver quem era. Aí ouviu um grito. Ou melhor, um miado, nas palavras dele. Viu que era eu e falou pro Leandro: “Corre lá. Corre que tem alguma coisa errada.”

Foram só dois pontinhos, mas fiquei um bom tempo neurótica, com medo da cicatriz que ia ficar. E ficou sim. Ficou uma cicatriz pequena, mais ou menos discreta. Eu já devia estar acostumada às marcas. Tenho um risco comprido no braço, resultado de um acidente envolvendo um cavalo chamado Titã, uma amazona inexperiente (eu) e um pé de limão. Minhas pernas estão sempre com marcas de arranhões provocados involuntariamente pela Frida ou pela May, marcas de picadas de marimbondo ou borrachudo e equimoses variadas. No rosto, as sardas de sol teimam em aparecer, apesar do protetor fator 40. E as mãos... Há um tempo eu tinha orgulho das minhas mãos finas e lisinhas, com unhas bonitas que eu gostava de pintar de vermelho forte, ou de rosa clarinho. Hoje elas estão tão queimadinhas de sol, a pele marcada e áspera em alguns lugares, de tanto mexer com as plantas e com a terra, as unhas sempre curtinhas.

Tem um livro muito lindo e muito louco. A mulher do viajante no tempo. Quando a personagem principal conhece o amor de sua vida, ele toca suas mãos e “vê que eram mãos de trabalhador”. Ela era escultora. Fazia esculturas de papel. Não dobraduras. Figuras imensas, de massa de papel que ela fazia e moldava. Vivia com as mãos dentro do tanque de água e papel. Mãos vermelhas. Ressecadas. Queimadas. Uma mulher linda, feminina e sensual, com mãos de trabalhador. Fico pensando que essas mãos de trabalhador normalmente têm muito mais a oferecer e têm muito mais histórias pra contar que as mãos de fada, macias e perfeitas de muitas mulheres perfeitas por aí. São mãos que fizeram, que construíram, acolheram, acarinharam e sofreram, e que carregam as marcas de vidas ricas.

Eu, de minha parte, não lamento nenhuma de minhas marcas. Ter sido obrigada a ouvir as piadinhas infames do Neto me comparando ao Anderson Silva ("Você até que lutou direitinho, mas quando pega na pontinha do queixo apaga mesmo, não tem jeito. Com o Aranha também foi assim.") isso eu lamento.

Ah, e como tive que ir ao dentista consertar o estrago, aproveitei e dei uma geral. Fiz até o clareamento que vinha querendo há um tempo. É assim: se a vida te der um limão, tenha sempre o sal e a tequila à mão! Arriba, abajo, al centro, adentro!


Minhas mãos de trabalhador

Uma marquinha de nada.

(Foi um livramento de Deus, porque só a pontinha da ferradura me atingiu. Nem quero pensar no que teria acontecido se ele tivesse me acertado o pé em cheio. O anjo da guarda de plantão no dia era dos bons.)

3 comentários:

  1. Oi, Giselle,
    acredito que essas marcas compõem a nossa história, conta quem somos e por onde estivemos. Não julgo nem sou contra quem faz cirurgias plásticas, mas eu não pretendo fazer. Que bom que a marca do incidente não ficou grande demais. Eu iria chorar horrores!
    Fazia um tempão que não aparecia aqui e adorei ler seu texto. Tenho o livro "A mulher do viajante no tempo", mas ainda não li. Seu comentário vai me fazer adiantá-lo na fila... rs
    Abraço e uma excelente semana!
    Jussara - minasdemim.blogspot.com

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  2. Oi prima! Que aventura...
    Você é muito corajosa , mas vê se toma mais cuidado! Suas mãos são lindas e você também.
    Beijos

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  3. Linda, graças a Deus isso já é passado... Bola pra frente e você continua lindíssima.

    Estava olhando a foto do Blog... lembra dessa foto? Era eu negociando os esteios de aroeira. Provavelmente neste instante estava pensando: "não posso perder esses esteios.. que raridade.." mesmo sem saber o que fazer com eles.
    Hoje eles estão chumbados fazendo parte da nossa varanda. Como o tempo passa né?
    Beijo

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