quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Sobre como fomos adotados e depois abandonados pela Catilanga

Nossa, que saudade desse blog... Muito tempo afastada. Poderia inventar algumas desculpas (a eterna correria do dia a dia, muitas ocupações na cidade e na roça...) mas a verdade é que fiquei várias semanas paralisada pelo abraço de um monstro já há muito conhecido: a depressão. Depois de perder um tempo precioso com uma relutância irracional (não preciso de médico, não preciso de remédios, posso ficar bem sozinha, e outras bobagens)retomei o tratamento e aos poucos emergi do lodo de tristeza, desânimo, pensamentos de desesperança e morte, e voltei a respirar alegria e a ser eu mesma. E hoje senti o alívio de perceber que já está tudo bem de novo: a vontade de escrever no blog voltou! Ufa!
Mas antes de voltar aos assuntos felizes, vou contar uma história que acredito ter sido um dos responsáveis por essa recaída de depressão. Não que eu queira ficar remoendo infelicidades. Pelo contrário. Acho que contar aqui é uma forma de tratar e superar isso. Então lá vai:

Assim que compramos a chácara, a casinha azul era uma construção inacabada, habitada por morcegos, pássaros, abelhas (uma caixa enorme no que hoje é meu quarto) e marimbondos (outra caixa, no tanque de lavar roupa). Nas nossas primeiras visitas, percebemos que sempre havia marcas de patas de cachorro na varanda e logo descobrimos um outro habitante do lugar: uma enorme cachorra mestiça de foxhound americano, magra como um caniço, que dormia embaixo do tanque. Começamos a reformar a casa e a passar tempo lá e a cachorrona sempre por perto, nos passando raiva: revirava as latas de lixo, sujava o que limpávamos. Um dia ganhei da Luciene um queijo lindo e apetitoso que ela fez. Coloquei em cima da mesa da varanda, ainda embrulhado em plástico. Entrei na cozinha por um minuto e quando voltei, cadê o queijo? Perto da cerca, ainda vi a cachorra engolindo o último pedaço dele. O Leandro tentava mandar ela embora, mas a danada sempre voltava, com seu jeitão tranquilo e preguiçoso. Ela estava sempre com fome. Nessa época o Déo estava morando lá e dava comida pra ela. Foi ele quem começou a chamá-la de Tila, que era o nome de uma cachorrinha que ele teve em Goiás. Eu a chamava de Tilanga, ou Catilanga. Para o Neto, ela era a Cintilante.

Depois de um tempo, descobrimos que a Tila na verdade pertencia a um vizinho, que chamarei de Senhor J. Esse senhor tinha fama de não tratar muito bem os bichos, o que pudemos comprovar pela magreza inicial da Tila (com pouco tempo de trato ela já estava rolicinha) e pelo fato de ela ter se mudado pra nossa chácara. Tila era um espírito livre e às vezes ficava uns dias sumida, passeando. Um dia apareceu com um pedaço de pano amarrado apertado no pescoço. Fiquei bravíssima de alguém ter feito essa maldade com ela. Tentei desamarrar o pano, mas não saia. Então cortei com o canivete. Ela ficou toda feliz de ficar livre daquilo e agradeceu com seus pulos desajeitados, quase me derrubando. Mais tarde nesse mesmo dia, apareceu por lá a esposa do Sr. J. Ela nunca tinha nos visitado, então estranhei. Depois de me cumprimentar, ela já foi logo falando: "Olha, vocês estão dando comida pra minha cachorra, e agora ela não pára lá em casa. Nós precisamos da cachorra lá. Então queria te pedir pra não dar comida pra ela. Ontem eu amarrei ela pra ver se ficava quieta, mas ela deu jeito de escapar." Nisso, a Tila deitada tranquila aos meus pés, e eu torcendo pra vizinha não ver o pano cortado que ainda estava jogado ali perto... Fui educada e falei que não ia mais dar comida pra Tila (que na verdade, descobri, se chamava Pirata), mas fiquei revoltada com esses donos que além de não alimentar o bichinho, ainda amarraram a coitada daquele jeito. É claro que continuamos alimentando a cachorra. Depois que o Déo foi embora, o Rubinho é que ia tratar dos cavalos todos os dias, e deixamos um saco de ração pra ele tratar da Tila também. Ela nos acompanhava em todas as cavalgadas (mesmo sem ser chamada!). Passava cada vez mais tempo na chácara e não ficava mais dias sumida. Sempre que chegávamos, ela vinha nos recepcionar na estrada, fazendo a maior festa e correndo atrás da caminhonete. Pulava em mim, quase me derrubando, alegre com nossa chegada. Mesmo sabendo que a cachorra quase não aparecia mais na casa do Sr J, fiquei um pouco assustada quando me contaram que ele havia se mudado de lá. Foi embora e deixou a Tila pra trás. Não sei se ele pensou que ela estava melhor com a gente... Ou se nem pensou nela.

Uma noite, estávamos eu, o Leandro e o Neto preparando o jantar, depois de um passeio a cavalo. O Leandro estava na cozinha e o Neto e eu na varanda, conversando. De repente, o Neto fala: "Nossa, Pedrinho, não faz isso não!" Olhei pra trás e vi num relance o morador da chácara ao lado. Pedrinho fazia uns serviços de capina lá pra gente, e sempre que estava passando por perto, parava pra tomar uma cerveja. Nessa noite, ele parou a moto lá perto da cerca, e entrou no maior silêncio. Levamos um susto com ele aparecendo de repente na varanda, mas o susto maior foi a atitude da Tila, que numa fração de segundo saltou de seu lugar embaixo da minha cadeira e, latindo furiosamente, pulava e mordia o ar a centímetros do rosto do Pedrinho. Ele foi quem se assustou mais, coitado! "Tilanga, calma menina! Pára com isso!" Gritei, segurando a cachorra. Duas latinhas de cerveja depois, Pedrinho se recuperou do susto e admitiu que fez mal em não ter nos chamado antes de entrar. E eu percebi que estávamos oficialmente adotados pela Catilanga. E ela estava disposta a nos defender com unhas e dentes, de um jeito muito literal!

Quando a Tila entrou no cio, fiquei preocupada com a possibilidade de uma ninhada de filhotes. Nessa época (novembro de 2013) tinham chegado as novas filhotinhas, as duas Malinois, completando o nosso bando de sete cães: Hunter e May (os American Staff de 7 e 8 anos), Frida e Meg (as border collies, com 3 anos e 1 ano e meio), Tila (idade desconhecida!) e agora Thatcher e Golda. Não havia a menor possibilidade de aumentar mais a família, então logo pensei em castrar a Tilanga. O Dr Marcelo, veterinário que costuma atender os meus bichinhos tem uns preços meio altos, e como estávamos com as finanças apertadas, resolvi levá-la numa veterinária que eu não conhecia, mas que já tinha castrado os gatos da minha irmã. Ela foi muito gentil, nos atendeu muito bem e nem ficou brava quando a Tila (que nunca na vida havia visto uma coleira, muito menos ficado presa em uma gaiola) destruiu a jaulinha, fez xixi por todo lado, quebrou a porta da sala de observação e tentou fugir. Quando eu trouxe Tila pra casa, depois da cirurgia, ela vomitou muito e não tomava os remédios. Liguei para a veterinária, que receitou uns injetáveis. Sete dias depois, Tila ainda estava meio fraquinha, mas tão estressada de ficar presa na nossa casa da cidade, que resolvemos levá-la de volta pra roça. Ela fez a maior festa ao chegar...

Mas logo começamos a perceber que a Tila não estava muito bem. Ela não nos acompanhava mais nos passeios a cavalo. Ficava muito quieta e começou a emagrecer. Às vezes passava dias sumida. Um dia apareceu, depois de um longo sumiço, e não quis comer a ração. Muito esquisito, porque ela era sempre uma gulosa. Dei uma salsicha e ela comeu. Fiquei preocupada, porque ela estava muito magra, descorada e abatida, e resolvemos então trazê-la de volta pra cidade. Fiquei com medo de trazê-la pra casa, porque pensei que podia estar com alguma doença infecciosa e as filhotinhas pequenas estavam aqui. Então levamos para a casa do Lincoln, que generosamente a hospedou. Como não consegui marcar consulta com a veterinária que fez a castração, levei no Dr Marcelo. Ele examinou, fez um ultrassom e indicou cirurgia imediata. A suspeita era de obstrução intestinal. Tila ficou internada e eu sai da clínica aos prantos. No dia seguinte, como eu estava trabalhando, o Leandro foi conversar com o Dr Marcelo. Ele contou que a cirurgia foi muito difícil. O que aconteceu com a Tila foi uma obstrução do intestino, provocada por um erro cirúrgico durante a castração... Apesar da gravidade, ela saiu bem da cirurgia e, quando o Leandro foi vê-la, abanou o rabinho quando ele falou com ela. No dia seguinte fomos de novo à clínica. Tila estava deitada e respirava de um jeito pausado e lento. Não reagiu ao nos ver. Perguntei para a veterinária de plantão por que a respiração da Tila estava daquele jeito e ela disse que podia ser o calor, que ela estava bem. Mas eu sabia que não era o calor. Quando o telefone tocou na manhã seguinte e eu vi que era da clínica, já comecei a chorar antes de ouvir a notícia.

Dr Marcelo me pediu pra ir lá conversar com ele. Ele disse que se quiséssemos processar a veterinária, ele testemunharia pra nós e tinha as fotos da cirurgia como prova. Mas depois disso fui entrando numa espiral de tristeza e não consegui nem ir lá falar com ele. O mal já estava feito. Nenhum processo ia me devolver minha cachorrinha. Fui sufocada por um sentimento de culpa muito grande: por ter tido a ideia da castração, por ter procurado aquela médica ao invés do que já conhecíamos, por não ter percebido antes que havia um problema grave... Era só uma cachorra, muita gente pensaria, mas nós que amamos os bichos também sofremos por eles.

Essa semana a Sônia e o Rubinho perderam a cachorrinha Mila. Uma linda que eu também adorava. Corajosa caçadora de ratos e defensora da casa e dos donos. Tão corajosa, a pobrezinha, que não teve medo e não se afastou da cascavel... Sônia ficou arrasada e disse que nunca mais quer ter cachorro na vida. Mas sabemos que logo a dor será menor, e já estamos providenciando uma surpresa: um lindo filhotinho de blue heeler. Quanto a mim, ficaram seis bichinhos ra me consolar.

Thatcher e Golda, as filhotes estabanadas, apaixonadas por água... As cachorras mais felizes do mundo, porque têm um pasto imenso pra correr, um rio pra nadar (quando dá preguiça de descer pro rio, elas mergulham nos cochos de água dos cavalos!) e a rede pra deitar junto comigo à noite.




Hunter e May. Meus dois "porquinhos" preguiçosos e dorminhocos.


Frida. Meu xodó. Minha companheira que me procuraria até o fim do mundo se se perdesse de mim.



Meg. Minha raposinha tímida. Viveu seus primeiros três anos na cidade, num canil pequeno. Nos foi presenteada por seu dono, um policial que treina os pastores alemães e malinois do canil da PM, e que sofria por não poder dar a Meg toda a liberdade e o movimento que o excesso de energia dessa border collie exigem. Até hoje acho que ela não acredita direito que tem esse espaço todo pra brincar.



O Leandro fala que é bom ter muitos cães, porque aí não sofremos tanto se acontecer alguma coisa com um deles. Mas eu discordo. Amamos cada um e sofremos por cada um. Mas, se existe a dor da perda, é porque existiram muitos momentos de felicidade. A fidelidade, o amor incondicional, a alegria fácil desses bichinhos nos ensinam a cada dia. Eles com certeza valem a pena...


2 comentários:

  1. Giselle, sinto muito por você! Sei bem o que é perder um animalzinho. Fazem 3 anos que perdi meu cão e agora quero outro, mas como estou morando em apartamento, fica difícil encontrar uma raça adequada.
    Tem o período do luto e você está ainda passando por ele. Tive muitos cães desde a infância, mas alguns são mais marcantes que outros. O cão que mais me identifiquei foi um golden retriever. Tenho vontade de ter um border collie mas me disseram que é bastante ativo. Se souber de uma raça boa para apartamento e que não seja "cachorrinho de madame", me indique. Por favor! :D
    Beijus,

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  2. Oi Luma! Então, o border collie é o bicho mais cheio de energia e ativo de que já tive notícias. Correm o dia todo. As minhas já acompanharam cavalgadas de 30 quilômetros e chegam felizes e brincando, sem demonstrar cansaço. Não acho que dá muito certo em apartamento. Mas o American Staffordshire acho que dá certíssimo. São lindos, têm aquela carinha charmosa de pit bull (não são NADA cachorrinhos de madame!), são calmos, dóceis, carinhosos, corajosos mas nunca agressivos, e não exigem tanto exercício. É claro morando em apartamento vão precisar de uma voltinha todo dia. Mas tenho amigos que já tiveram essa raça em apartamento e gostaram muito. Beijos e obrigada pela visita e pela solidariedade!!

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